O Brasil é Mais Rural do que se Imagina

O Brasil é Mais Rural do que se Imagina

O Brasil é Mais Rural do que se Imagina

Não existe país com mais“cidades”do que o Brasil. Eram 5.546 quando houve o último Censo Demográfico (2010). A menor, União da Serra, no nordeste gaúcho, tinha apenas 18 habitantes. E não é uma exceção: são 90 as “cidades” com menos de 500 habitantes. Mas, lugar com tão poucos moradores poderia ser mesmo considerado uma cidade?

No mundo todo não, mas no Brasil os critérios de definição do que é uma cidade são meramente administrativos: toda sede de município é considerada uma cidade, independente da densidade demográfica ou outros critérios funcionais. Mesmo que só tenha quatro casas, nas quais residem três famílias de agricultores e uma de madeireiro (como é o caso de União da Serra, citada acima). De um total de 5.507 sedes de município existentes em 2000, havia 1.176 com menos de 2 mil habitantes, 3.887 com menos de 10 mil, e 4.642 com menos de 20 mil, todas com estatuto legal de cidade idêntico ao que é atribuído aos núcleos que formam as regiões metropolitanas. E todas as pessoas que residem em sedes, inclusive em ínfimas sedes distritais, são oficialmente contadas como urbanas.

Em outras partes do mundo, não existe um único critério para se definir o que é cidade e sim uma combinação de critérios estruturais e funcionais. Critérios estruturais são, por exemplo, a localização, o número de habitantes, de eleitores, de moradias, ou, sobretudo, a densidade demográfica.

Vale lembrar que também não é verdadeiro o critério que torna agropecuária sinônimo de rural e vice-versa; assim, uma comunidade rural não necessariamente é agricultora. Critério funcional é a existência de serviços indispensáveis à urbe. Um exemplo ilustrativo é o caso de Portugal, onde a lei determina que uma vila só possa ser elevada à categoria de cidade se, além de contar com um mínimo de 8 mil eleitores, também oferecer pelo menos metade dos seguintes dez serviços: 1) hospital com permanência; 2) farmácias; 3) corporação de bombeiros; 4) casa de espetáculos e centro cultural; 5) museu e biblioteca; 6) instalações de hotelaria; 7) estabelecimentos de ensino preparatório e secundário; 8) estabelecimentos de ensino pré-primário e creches; 9) transportes públicos, urbanos e suburbanos; 10) parques e jardins públicos. Se tomássemos por base os critérios lusitanos, no Brasil existiriam, na melhor das hipóteses, umas 600 cidades.

Além da questão da densidade demográfica e também pelo fato de ter ainda muitas áreas intocadas pelas artificialidades do ambiente totalmente urbano, o Brasil é mais rural do que oficialmente se calcula, se considerarmos que há níveis intermediários entre o que é campo e o que é cidade. O que não é negativo, pois hoje em dia, nos países de primeiro mundo, está ocorrendo uma valorização constante de tudo que se distingue da artificialidade urbana: paisagens silvestres ou bem cultivadas, água limpa, ar puro e mais silêncio. Sob esse ponto de vista, cai o mito de que ser rural é ruim, atrasado e sinônimo de miséria. E depois da proliferação de purgatórios em torno das aglomerações urbanas, é impossível continuar pensando que seja essa a solução para o desenvolvimento de um país como o Brasil. Pelo contrário: as tendências mundiais mostram que algumas das principais vantagens competitivas do século XXI dependerão da força de economias e ambientes rurais.