Um Olhar Sobre a Comunicação Científica na China

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Um Olhar Sobre a Comunicação Científica na China

Por Yin Lin
Shi Shunke
Tradução de Germana Barata
10/04/2012
Um Olhar Sobre a Comunicação Científica na China
O Instituto de Pesquisa da China para a Divulgação da Ciência submeteu, no ano de 2010, mais uma vez, seus cidadãos a uma pesquisa nacional sobre alfabetização científica. Esta foi a oitava iniciativa sobre tal temática no país desde 1991. De acordo com os resultados da pesquisa, a proporção de cidadãos chineses que foram considerados alfabetizados cientificamente chega a 3,27%. Os números sofreram um ganho de 1,02% em relação a 2007, e 1,67% a 2005. Sem levar em conta as diferenças de metodologias usadas em levantamentos similares no cenário global, os dados disponíveis de alguns países podem ser apresentadas como: os canadenses aumentaram seus níveis de alfabetização científica em 4%, em relação a 1989, os japoneses em 3%, desde 1991, e os europeus em 5%, na comparação com 1992. A comparação indica que o povo chinês está, aproximadamente, lado a lado com as populações dos países acima citados em torno dos anos 1990, no que diz respeito a alfabetização científica, que é um objetivo traçado em um projeto nacional do país em 2006. Entretanto, apenas a pesquisa chinesa como único indicador não diz muito. Outros resultados e atividades podem ser indicativos de que a China tem participado do debate sobre comunicação da ciência. 

Povo chinês favorece a ciência
Pesquisas anteriores mostram, a despeito da deficiência da alfabetização científica, que uma grande proporção de cidadãos chineses, entretanto, possui atitudes positivas em relação à ciência e tecnologia (C&T). Os resultados da pesquisa de 2010 indicam: 

• Na compreensão geral sobre C&T, 74,8% dos cidadãos chineses concordam que a “ciência e a tecnologia são tanto benéficas quanto prejudiciais; e o beneficio compensa o prejuízo”. 

• Mais de sete dentre dez pessoas acreditam que o governo deve financiar pesquisas científicas mesmo que elas não tragam nenhum benefício imediato. 

• Dentre várias profissões, a reputação de profissionais relacionados à C&T é mais favorável do que a de outros profissionais, de acordo com o ponto de vista do público chinês. Os cientistas mantêm-se em segundo lugar no ranking de prestígio ocupacional nas pesquisas de 2005, 2007 e 2010. 


Fica óbvio que os chineses favorecem positivamente a ciência e a tecnologia e possuem grandes expectativas em relação à carreira profissional nessas áreas. Isso ocorre, em parte, porque eles testemunharam e experimentaram o poder da ciência e da tecnologia que mudaram grandemente suas vidas e o mundo em torno deles e, em parte, por conta do senso comum formado a partir de uma longa relação de defesa da ciência e tecnologia, que estabeleceu uma imagem de admiração.
Embora a admiração pela ciência e tecnologia tenha sido substituída por uma atitude mais objetiva, a expectativa em relação a essas áreas é ainda muito forte na China. Os chineses são atraídos pela “mágica” da ciência e tecnologia, o que gera uma grande confiança e cria um ambiente favorável para o desenvolvimento dessas áreas. Comparando com os países desenvolvidos, os chineses compartilham de menos senso crítico em relação ao que a C&T pode nos proporcionar. Mas, recentemente, sob a influência da campanha mundial para a comunicação da ciência, o governo incentiva as pessoas a se envolver com o assunto, o que demanda o desenvolvimento da alfabetização científica em sentidos mais sofisticados.

Atualmente, a alfabetização pública da ciência se refere às seguintes habilidades:
• Possuir conhecimento científico, método, pensamentos e ethos.

• Aplicá-los na resolução de problemas práticos e na participação de questões públicas que envolvem a ciência e a tecnologia. 

A percepção multidimensional sobre ciência e da tecnologia, em seus papéis na sociedade, expande e aprofunda a percepção pública de C&T. Os chineses perceberam que a relação interativa entre a ciência e o mundo muda em uma perspectiva de maior entendimento.

As políticas desempenham papel importante
Na China, a comunicação da ciência é normalmente definida como “popularização da ciência”. O termo tem sido bastante usado por muito tempo, aproximadamente mais de 60 anos, embora a prática no campo possa ser traçada até um século antes. Do ponto de vista chinês, a popularização da ciência é um tipo de comportamento social que ajuda as pessoas a compreenderem e aprenderem sobre o conhecimento científico e tecnológico e a usufruir deles para uma vida melhor. Uma das primeiras organizações a se dedicar especialmente à popularização da ciência, depois da Nova China, é a Associação Chinesa para a Ciência e a Tecnologia (Cast), fundada em 1958. Desde então, as atividades da popularização da ciência se desenvolveram enormemente. Para que a popularização da ciência florescesse em práticas sociais mais benéficas, a China viu muitas políticas serem estabelecidas pelo governo central e pelos diferentes governos em níveis inferiores, das quais três políticas nacionais são consideradas de grande importância.

A primeira é a “Diretrizes para o reforço da popularização de C&T” instituída pelo Comitê Central do Partido Comunista da China e pelo Conselho Estatal em dezembro de 1994. O documento reafirmava a importância da popularização da ciência e indicava o enfoque do trabalho futuro naquela época. A segunda é a Lei da República Popular da China na Popularização da Ciência e da Tecnologia, decretada em 2002, que se tornou um marco na história da popularização da ciência na China por ter propiciado proteção legal e apoio político a essa empresa (1) sem fins lucrativos. Em 2006, o Conselho Estatal endossou o esboço do Esquema Nacional para a Alfabetização Científica (2006-2010-2020). Trata-se de uma estratégia nacional de planejamento do desenvolvimento da popularização da ciência em longo prazo. Sob o escopo dessa estratégia, a mão de obra e os recursos sociais são plenamente mobilizados e há o investimento de uma grande quantidade de recursos públicos. Nunca antes na história da China se vira tal projeto. Das três políticas, o Esquema é extremamente notável por seu escopo e escala. 

O Esquema foi lançado no contexto chinês quando a nação estava com pressa de administrar seu progresso econômico e social. Cidadãos com níveis inferiores de alfabetização científica são um dos gargalos que contiveram o desenvolvimento econômico e o progresso social na China. Assim, o ponto chave está em melhorar os níveis de alfabetização científica nos cidadãos. É de grande importância reforçar a capacidade em adquirir e usar o conhecimento da ciência e tecnologia, melhorar a qualidade de vida, perceber o desenvolvimento como um todo, bem como tornar a China um país conduzido pela inovação e ter um desenvolvimento econômico e social compreensível, equilibrado e sustentável.

O processo de produzir o Esquema foi cuidadosamente projetado, começando com pequenos grupos de estudos com o foco em um pacote de doze temas inter-relacionados. Foram criados círculos de discussões e de seminários consultivos. Após três anos de esforços conjuntos, o Esquema conseguiu o efeito desejado em fevereiro de 2006. 

O Esquema é um plano de ação estratégico a longo prazo projetado para promover a melhoria da capacidade de alfabetização científica da população chinesa por meio do desenvolvimento da educação, comunicação e popularização da ciência e tecnologia. Ele deixa claros as orientações e os esforços necessários para a comunicação e popularização da ciência e a tecnologia (PST) em um período de 15 anos. 

O princípio estratégico do Esquema é o “impulso governamental, participação pública, aumento da alfabetização da ciência e a promoção de harmonia”. Guiado por esse princípio, o objetivo da estratégia foi projetado para ser concluído em duas fases, que é de 2006 a 2010, e de 2010 a 2020: 

•     Em 2020, a China assistirá ao aumento da educação, comunicação e popularização relativas ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Isto estabelecerá um sistema, infraestruturas, e condições bem estruturadas para esse propósito, e também um sistema para avaliar o desenvolvimento da capacidade de alfabetização científica da cidadania. A alfabetização científica dos cidadãos deverá passar por uma grande melhoria, alcançando os níveis dos principais países desenvolvidos no início do século XXI. 

•   Em 2010, a educação, comunicação e popularização relativas à ciência e tecnologia deverão ter um grande desenvolvimento, com crescimento visível na alfabetização científica dos cidadãos, alcançando o nível da maioria dos países desenvolvidos nos anos 1980. 

Na mesma linha do objetivo do Esquema, programas e atividades são conduzidos em relação estreita com os seguintes temas: economia de energia e de outros recursos naturais, preservação ecológica do ambiente, cuidados com a saúde e proteção da vida, e inovação e estímulo do processo criativo.


Esforço conjunto e realizações
Para alcançar os objetivos e capacitar o serviço público em popularização da ciência, o Esquema possui cinco ações e cinco projetos dentro de sua estrutura de funcionamento. Em resposta às necessidades da população, as cinco ações têm como alvo cinco grupos sociais: fazendeiros, trabalhadores de áreas urbanas, jovens, líderes e funcionários públicos, assim como os moradores da comunidade. Os cinco projetos se concentram na implementação de capacidade e são elaborados para permitir ao cidadão mais oportunidades de acesso e de envolvimento com ciência e tecnologia, o que inclui a educação e formação em ciência, o desenvolvimento e o compartilhamento de recursos de popularização da ciência, capacitação da mídia em popularização da ciência, a construção da infraestrutura e o treinamento dos práticos em popularização da ciência. No âmbito dos cinco planos de ação e dos cinco projetos chaves, as atividades existentes, recém lançadas, foram integradas e deram um grande impulso ao desenvolvimento da popularização da ciência no país.

O Esquema em si é um projeto extraordinário. Para garantir suas conquistas, é crucial que haja uma administração eficaz. No início, foi formada uma força tarefa especial para o funcionamento do projeto composta por 14 agências governamentais, organizações nacionais e academias, tais como o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Ministério da Educação, o Ministério da Agricultura, o Ministério do Trabalho e da Previdência Social, a Administração Estadual do Radio, Cinema e Televisão, a Academia Chinesa de Ciências, a Academia Chinesa de Ciências Sociais, a Associação Chinesa da Ciência e Tecnologia, a Federação de Todas as Mulheres da China etc. Depois que o Esquema foi posto em prática, foi construído um escritório sede para facilitar a sua implementação. A equipe de trabalho desse escritório consiste na participação de 20 representantes vindos dos ministérios e das organizações acima mencionados. Seguindo o princípio do “incentivo do governo e participação pública”, as agências governamentais, as instituições públicas e as ONGs, alinhadas com as exigências do Esquema, tomam as atividades como parte de seu plano ou programas de trabalho, cumprindo as obrigações exigidas nelas atribuídas. Um mecanismo de trabalho matriz foi adotado a fim de integrar os recursos materiais e humanos, sob a orientação do escritório.

De acordo com as estatísticas do Ministério da Ciência e Tecnologia, o financiamento anual para a popularização de C&T de 2006, 2008 e 2009 foi, respectivamente, 4,6 bilhões, 6,4 bilhões e 8,7 bilhões de RMB (Renminbi ou Yuan), que vêm do financiamento governamental, financiamentos especiais, doações privadas, fundos auto estabelecidos e outros recursos. Com o apoio e a participação de diferentes setores sociais, foram realizadas iniciativas relativas à popularização da ciência e tecnologia por todo o país com engajamento público maciço. De 2006 a 2010, os primeiros cinco anos de execução do Esquema, quase 200 milhões de atividades temáticas foram organizadas, atraindo mais de 500 milhões de participantes. Por exemplo, houve um relativo aumento no alcance da participação pública durante a Semana Nacional da Ciência desde que a estratégia entrou em vigor (veja a tabela abaixo).
Ano
Exposições de popularização de C&T
Semana de Ciência
Número de exposições PST exibidas
Número de participantes
Número de iniciativas conduzidas
Número de participantes
2009
130.198
196.691.959
98.409
97.333.897
2008
115.339
197.195.420
96.335
89.868.572
2006
103.090
145.242.698
104.132
86.693.702

Presentemente, a popularização da ciência está conquistando ainda mais participação e chamando a atenção do público e dos tomadores de decisões. A consciência pública e o interesse pela ciência e tecnologia estão claramente crescendo. A capacidade de serviços de PCT para o público tem melhorado grandemente através do desenvolvimento de cinco projetos de capacitação. Os três meios mais utilizados por cidadãos chineses para obter informação sobre C&T são a TV, os jornais e conversas pessoais. O papel dos meios de comunicação de massa na popularização da ciência tem ganhado importância por ser um meio eficaz não apenas para comunicar o conhecimento científico e divulgar ideias tais como fontes de energia, preservação ecológica, vida saudável etc, mas também para disseminar informações sobre ações que aumentem a chance de sobrevivência sob circunstâncias de emergência, seja na saúde pública ou em desastres naturais. Para atender a grande demanda dos cidadãos, o número de livros de divulgação da ciência publicados em 2009 era de 69 milhões de exemplares, o que é 40,82% superior àquele de 2006. Igualmente no mesmo ano, as transmissões de programas de rádio e televisão sobre divulgação da ciência totalizaram 197 e 243 mil horas, o que é 98,29% e 113,53% mais longo do que as transmissões de 2006. A infraestrutura de popularização da ciência também se desenvolveu enormemente. O número de museus de ciências naturais aumentou de 250, em 2005, para 582, em 2010. 

A popularização da ciência, como outras práticas sociais, está entrando em uma fase favorável sem precedentes. A grande demanda, de diferentes grupos sociais, em áreas distintas produz várias iniciativas e programas. Para torná-los mais acessíveis e populares, algumas áreas devem ainda ser fortalecidas com novos esforços, por exemplo, o treinamento da mão de obra para a popularização da ciência, o estabelecimento de um padrão de trabalho entre pesquisa e divulgação científica gerando benefícios mútuos, a otimização da produção e compartilhamento de recursos etc. Não importa o que aconteça, a popularização da ciência está galgando um esplêndido amanhã nessa parte do planeta.

Yin Lin, pesquisador do China Research Institute for Science Popularization. Possui estudos sobre teoria da escrita em popularização da ciência na China, a situação da divulgação científica e tecnológica na China, a visão geral sobre atividades de educação de C&T em jovens americanos. E-mail: yinlin213@126.com 

Shi Shunke é pesquisador senior do China Research Institute for Science Popularization e atua na pesquisa com teoria, política, história da popularização da ciência. Email: shishunke@yahoo.com.cn 

Este artigo foi originalmente escrito em inglês para a revista ComCiência

Nota da tradutora
1. Os autores se referem ao China Research Institute for Science Popularization, instituto de pesquisa do qual fazem parte.