A REDESCOBERTA DA ÁFRICA*

Tudo indica que a África, berço da humanidade, seja a mãe de todos nós. No entanto, com que prepotência o Ocidente tem tratado este continente de prodigiosa riqueza cultural. Quem de nós conhece as civilizações africanas?

Lembro-me da minha surpresa ao descobrir, na África, através da grande obra Panarias da Guiné, que a primeira relação entre Europa e Guiné foi a exportação de tecidos - da Guiné para a Europa - no século 15, já que as técnicas de tecelagem e de tinturaria eram ali adiantadas para a época. No Mali, encontrei fornos antigos para a fabricação de aço, que os historiadores afirmam ter produzido metal de qualidade só atingida na Europa na segunda metade do século XIX.

Estes retalhos de civilização técnica de um continente que globalmente é apresentado como primitivo, deixam-nos um tanto céticos: serão imagens que buscamos para contrapor à negação da cultura africana que predominou durante séculos nos nossos países?

Aos poucos, e somente nos últimos 20 anos, começa a busca por respostas científicas e organizadas, e se levanta lentamente o véu sobre o passado de um continente massacrado, mutilado, explorado. E que ainda por cima, viu-se roubado do seu passado, como se tivesse começado a existir apenas com a violência européia. Porque a história da África ainda é, fundamentalmente, a história do branco na África.

Em Bissau, na costa ocidental do continente, conversei com o motorista que guiava o nosso miserável Land-Rover da cidade para o Ministério, sobre o passado da sua terra. Descobri repentinamente outro universo: nos seus momentos livres, este homem de condição evidentemente precária estava trabalhando na transcrição em “ajami” para o crioulo, da história da guerra dos fulas e dos mandingas, consignada em tabuletas de madeira com ajuda do alfabeto árabe. Em aldeias do Gabu, vi estas tabuletas preciosamente conservadas pelos velhos, os “homens grandes”, para transmissão dos conhecimentos às novas gerações.

TECNOLOGIA PRÓPRIA
A África, outrora sangrada pela caça aos escravos, mais tarde pilhada nas suas riquezas naturais, hoje esmagada pelos tratores tecnológicos que chegam do Norte, conserva uma espantosa capacidade de sobrevivência cultural. Na zona Leste de Bamako, região que é um dos berços de um vasto império africano, centenas de artesãos recortam e desmontam equipamento caríssimo importado no quadro dos projetos de desenvolvimento, como tratores e caminhões, para produzir charruas, panelas, foices, enxadas, carroças.

O mais espantoso ainda é ver estes trabalhadores, diariamente acusados pelos assistentes técnicos europeus de incapacidade e de irresponsabilidade, realizarem proezas técnicas fora do comum quando se trata de responder a necessidades vistas e sentidas como próprias.

Não é por gostar de curiosidades que descrevo estas imagens. É que ao visitar esses cemitérios de ferro velho, gigantescos depósitos do lixo tecnológico internacional, não se pode deixar de ver o fato cultural e político que existe por trás da problemática do desenvolvimento econômico que tanto batalhamos em promover.

Esta prepotência tecnológica multinacional, reduzida aos pedaços, digerida e transformada por um povo pobre, mas de prodigiosas tradições, aponta simplesmente para uma nova ignorância. No próprio Mali, uma casta, os “griots”, transmitem oralmente, de geração em geração, os feitos da sua nação e das nações vizinhas. No Congresso Internacional de Historiadores que se reuniu em maio último [1982] em Bamako, os que desprezavam estes “griots” como contadores de história sem fundamento científico, viram-se humilhados ao ter que aceitar correções básicas nas suas teorias, feitas por um analfabeto. Como não lembrar [do filme] “Fahrenheit 451”, em que homens de cultura perseguida se escondem nas matas, e aprendem de cor as obras do seu passado, agarrando-se a ele como a um bem dos mais preciosos.

CULTOS TRADICIONAIS
Nas ruas de Bamako, uma das cidades mais pobres do mundo, o trânsito vive engarrafado pelo excesso de automóveis, pontas de lança da nossa civilização. No entanto, o luxuoso gravador, pendurado na porta de um barraco, cobre os ruídos com os cantos tradicionais que relatam os feitos de Sundiata. Não é possível entender nada da África se não se entender este dilaceramento cultural permanente, que resulta de uma agressão sempre renovada. As recusas de modernização, quando não a sua sabotagem consciente, o técnico as interpreta como ignorância, analfabetismo, primitivismo. Trata-se, muito mais, de uma necessidade de sobrevivência. Ninguém faz história como objeto.

O trabalho dos historiadores que buscam a realidade do passado africano tem assim um sentido profundo e o caráter de uma urgência particular. Um dos maiores historiadores africanos, Ki-Zerbo, constata em História Geral da África que, nas últimas décadas, “milhares de pesquisadores, muitos de grande ou mesmo de excepcional mérito, vêm procurando resgatar porções inteiras da antiga fisionomia da África. A cada ano, aparecem dezenas de novas publicações cuja ótica é cada vez mais positiva. Descobertas africanas, por vezes espetaculares, questionam o significado de certas fases da história da humanidade no seu conjunto.”

“A história geral da África – escreve Ki-Zerbo – como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita. E isso porque, até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela força das circunstâncias, ou seja, pela ignorância e pelo interesse. Abatido por vários séculos de opressão, esse continente presenciou gerações de viajantes, de traficantes de escravos, de exploradores, de missionários, de prepostos, de sábios de todo tipo, que acabaram por fixar sua imagem no cenário de miséria, de barbárie, de irresponsabilidade, do caos. Essa imagem foi projetada e extrapolada ao infinito ao longo do tempo, passando a justificar tanto o presente quanto o futuro. Não se trata aqui de construir uma história-revanche, que relançaria a história colonialista como um bumerangue contra os seus autores, mas de mudar a perspectiva e ressuscitar imagens “esquecidas” ou perdidas. Torna-se necessário retornar à ciência, a fim de que seja possível criar, em todos, uma consciência autêntica. É preciso reconstruir o cenário verdadeiro. É tempo de modificar o discurso.”

SOLIDEZ CIENTÍFICA
É difícil superestimar a importância do trabalho que hoje é apresentado, no seu primeiro volume, ao público brasileiro, a História Geral da África. Trata-se do resultado de mais de 15 anos de trabalho de algumas dezenas dos melhores historiadores africanos e outros, por iniciativa da UNESCO.

O vulto do empreendimento assusta – no total, são oito volumes de quase mil páginas cada - , mas a solidez científica da elaboração, a importância das informações trazidas e a simplicidade de estilo fazem com que sua leitura seja apaixonante. É uma enorme parte do nosso próprio passado que se descortina, capítulo por capítulo, sob a pena de diversos autores, mas numa unidade de método e orientação impressionante.

Rompendo com o elitismo pseudocientífico, os historiadores vão diretamente aos fatos importantes, encarando claramente a função política que desempenham: “A atitude história africana não é uma atitude vingativa afim da auto-satisfação, mas um exercício vital de memória coletiva que varre o campo do passado para reconhecer suas próprias raízes. Após tantas visões exteriores que têm modelado a marca registrada da África a partir de interesses externos (até nos filmes contemporâneos), é tempo de se resgatar a visão interior da identidade, de autenticidade, de conscientização: volta “repatriadora” como diz Jacques Berque para designar esse retorno às raízes. Ao considerar o valor da palavra e do nome na África, ao pensar que atribuir nome a uma pessoa é quase apoderar-se dela – a tal ponto que os personagens venerados (pai, esposo, soberanos) são designados por perífrases e cognomes – compreenderemos porque toda a série de vocábulos e conceitos, todo o arsenal de estereótipos e de esquemas mentais relativos à história da África, situam-se no contexto da mais sutil alienação. É preciso aqui uma verdadeira revolução copernicana, que seja primeiramente semântica, e que sem negar as exigências da ciência universal, recupere toda a corrente histórica desse continente, em novos moldes.”

O primeiro volume, centrado na metodologia e na pré-história da África, mostra o gigantesco salto que está sendo dado na recuperação do passado africano: em 1950, não havia nenhum historiador africanista profissional exclusivo; em 1970 eram cerca de 500 historiadores com doutorado ou equivalente, dedicando-se com exclusividade a esta pesquisa.

TRIBOS DE HOLLYWOOD
O mito da ausência de fontes, que durante tanto tempo serviu de desculpa oficial para os historiadores europeus e americanos, é desfeito, ao se analisar a fundo as possibilidades das fontes escritas, com enormes arquivos ainda não pesquisados, das tradições orais tão desprezadas e que hoje se sabe constituirem fonte preciosa de informação, da lingüística, da antropologia, da etnologia.

O trabalho dos historiadores que elaboraram esta História Geral da África obedece a princípios claros: interdisciplinaridade, permitindo a visão da sociedade; a busca de uma história “enfim vista do interior”, uma história de conjunto dos povos africanos, e não dos retalhos criados pelo colonialismo. Uma história dos povos e dos seus usos, incluindo técnicas, artes, circuitos comerciais, e não um relato das elites.

Desaparece o conceito de “tribo”, rejeitado como termo não científico e, na realidade, bem mais próximo de Hollywood do que da África. Também desaparece o conceito de unidades fechadas sobre si mesmas: os povos africanos sempre conheceram um importantíssimo comércio internacional em nível do continente, com especializações bastante marcadas. Desaparece igualmente a concepção estática da história da sociedade africana, como se antes da colonização, a África não estivesse submetida a um processo de transformações históricas, como todos os continentes: é o mito de um estado “natural”, primitivo e atemporal, que dominou tantos estudos sobre a África.

Aparece também na sua dimensão real a “violência” africana, tão associada ao conceito de “lutas tribais”, lutas que não foram tribais e nem chegaram nunca aos pés, em termos de violência, das que os europeus exerceram contra a África ou entre si.

Página por página, respiramos o ar puro de verdades enfim ditas, de um trabalho científico sério que nunca cede ao “folclore” ou ao falso “típico”, e que se dá ao luxo de definir claramente o seu caminho frente à reação anti-colonial de certos historiadores ocidentais, que passaram a criticar os colonialistas mas, nem por isso, souberam analisar o peso que o próprio africano teve no processo, mudando os seus valores, mas guardando o sujeito.

Para nós, no Brasil, a importância da edição desta obra é óbvia. E os historiadores africanos não deixam de mencionar esta curiosidade de dois países, onde a população africana teve papel fundamental no desenvolvimento econômico e cultural, como o Brasil e os Estados Unidos, estarem praticamente na estaca zero em termos de estudo do passado africano: “Por mais importantes que fossem os vestígios culturais africanos, nem o Brasil, nem as Caraíbas deram a atenção merecido ao assunto... O interesse era anda menor nos Estados Unidos...”

Isso mostra, sem dúvida, a que ponto o colonialismo cultural ainda pesa entre nós, e a que ponto a história ainda é uma ciência colonizada.

Num país de mais de 40% de população de origem africana, contam-se nos dedos as iniciativas científicas. Em São Paulo, temos conhecimento de três trabalhos de importância entre 1977 e 1979: teses de doutorado dos professores Carlos Henrique Serrano, sobre o poder político no reino Ngola, Kabengele Munanga sobre os Basanga do Shaba, e do Kazadi Wamukuna sobre a contribuição bantu à música popular brasileira.

Os esforços não faltam, como podem testemunhar o trabalho do professor Fernando Mourão e a criação de alguns centros como o Centro de Estudos Africanos na USP, o Centro de Estudos Afro-Asiáticos na Bahia, o Centro de Estudos Afro-Asiáticos na Bahia, o Centro de Estudos Afro-Asiáticos na Cândido Mendes do Rio de Janeiro, as iniciativas de Abdias Nascimento da PUC de São Paulo.

O fato é, no entanto, que frente à importância do tema, as iniciativas e os apoios são nitidamente insuficientes. A promoção da Ática, com este início de publicação, reveste-se assim de particular importância. Tanto pelo valor da obra apresentada, como pelo fato que permitirá modificar substancialmente e reforçar o ensino da realidade africana em todos os níveis.

A história oficial africana se descoloniza. Até quando a nossa permanecerá na Casa Grande?


Ladislau Dowbor
Agosto, 1982


*Artigo publicado em 15 de agosto de 1982, em Folhetim, (Folha de São Paulo) por ocasião do lançamento do primeiro dos oito volumes da História Geral da África (Ática/Unesco, 864pág) na Bienal do Livro de São Paulo.