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ATIRADORES DE ELITE NA PRIMEIRA E SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Vasili Zaitsev em Estalingrado, (Outubro de 1942).
Primeira Guerra Mundial
Mesmo sendo uma prática militar já usual no inicio do século XX, as nações européias só vieram a utilizar largamente atiradores de elite a partir da Primeira Guerra Mundial. Na verdade este foi o primeiro conflito em que esta modalidade de combatente foi grandemente utilizada.

Alemães, ingleses, franceses, australianos, americanos e turcos entre outros, usaram largamente suas novas unidades de atiradores de elite neste conflito, pois as características da “guerra das trincheiras” favoreciam os disparos de longo alcance e a imobilidade do atirador.

Foram os alemães que usaram os primeiros snipers especialmente treinados para a função.

O inglês Hisketh Pritchard criou a primeira escola aliada de atiradores de elite durante a Primeira Guerra, no Reino Unido, onde atiradores britânicos e americanos treinavam juntos. Muitos civis belgas usaram suas armas de fogo na função de "franco-atiradores" contras as forças invasoras alemãs em 1914. Atiradores turcos cobraram um alto tributo as tropas aliadas em Gallipoli.

Em uma quinzena da guerra de trincheira em dezembro de 1915, as tropas britânicas sofreram 3.285 baixas. Aproximadamente 23% destas baixas estavam relacionadas com ferimentos na cabeça, face e pescoço.

É uma suposição considerável que um grande número destas baixas foram causadas por um sniper. Isto certamente gerava nos soldados aliados um tremendo efeito psicológico relacionado com a insegurança e um desejo de ficar no fundo de sua trincheira em vez de estar participando de ataques de infantaria.

Qualquer um que coloca-se a cabeça para fora era um alvo. Mas com o tempo os atiradores ficaram mais seletivos (oficiais principalmente), pois se a sua posição fosse descoberta ela seria saturada com um impiedoso bombardeiro. Por isso os alvos deveriam valer a pena serem abatidos.

Quando os atiradores era feitos prisioneiros deviam esperar pouca misericórdia do inimigo, pois normalmente o atirador fazia vítimas também entre os soldados que não estavam diretamente envolvidos com ações de combate.

Muitos civis belgas funcionaram como franco-atiradores durante os primeiros meses de guerra. Já nesta época os atiradores operavam em pares. Os atiradores de elite serviam normalmente sob oi comando do QG de um batalhão.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o Exército britânico encontrou atiradores alemães equipados com capas de camuflagem e rifles especiais com visões telescópicas. Os alemães colocaram telescópios em seus fuzis G98.

Os snipers alemães forçaram o Exército britânico a empregar as mesmas técnicas. Ao final da guerra, os britânicos puderam superar os alemães no seu próprio jogo.

Muitas das armas usadas pelos atiradores no inicio da guerra era rifles de caça para elefantes, que depois foram substituídos por rifles standard adaptados para a função. Também nesta guerra foram treinados atiradores para servirem em ações countersnipes.

Segunda Guerra
Nesta época um salto de qualidade foi dado por japoneses, britânicos, russos, americanos e alemães. Mais uma vez foram criadas unidades especificas de treinamento e emprego deste tipo de atirador. Nestas unidades de treinamento a preparação e doutrina dos combatentes era diferente dos soldados comuns, pois as condições de qualificação exigidas eram extremas, dando-se especial ênfase à parte psicológica. Durante a Segunda Guerra Mundial, a sofisticação de equipamentos estava apenas iniciando e o alcance médio dos fuzis era de 400 metros.

O Exército inglês tinha várias exigências para escolher um atirador de elite: inteligência acima da média, forte e incansável, ótima pontaria, prazer pela solidão e, de preferência, um homem do campo. Os alemães incentivavam muitas vezes seus oficiais à serem atiradores de elite, inclusive condecorando-os com medalhas específicas para 20, 40, e 60 inimigos confirmadamente abatidos.

Os alemães tem nos registros oficiais um dos maiores atiradores de elite da história Mathias Heutzenaner, que durante o ano de 1944 na frente russa, abateu 345 soldados e oficiais soviéticos! (Nota: na maioria dos casos, utilizou um fuzil alemão projetado para ser uma arma anti-tanque, calibre especial de 13mm, alcance de utilização ao redor de 500m, tiro único). Um dado interessante é que os soviéticos usaram com bons resultados mulheres como atiradoras de elite, devido a sua paciência e determinação.

Nas operações na Normandia os alemães infestaram a região, propicia para a defesa, com centenas de atiradores de elite, que foram deixados para trás para retardar o avanço aliado. Eles só cessavam de operar quando eram mortos ou quando a sua munição acabava, momento em que se entregavam.

Os atiradores de elite, especialmente alemães e russos, conseguiam atingir uma cabeça a 400m, um dorso a 600m e um corpo inteiro a 800, necessitando repetir os disparos em apenas 20% a 40% dos casos segundo a distância.

Duelo em Stalingrado
Um dos duelos mais famosos entre atiradores de elite aconteceu na batalha por Stalingrado entre o russo Vasili Zaitsev e o alemão Erwin Konig.

Durante o início da batalha de Stalingrado as condições que os russos enfrentavam eram extremamente difíceis, pois os alemães queriam os campos de petróleo do sul da Rússia, do Cáucaso e o controle do rio Volga. Era uma região de extrema importância econômica, industrial e política, o que fazia com que os nazistas levassem não só infantaria bastante numerosa, mas também tanques, aviões de caça, bombardeiros, canhões e infantaria blindada. Visto que a cidade industrial de Stalingrado não tinha grande concentração de efetivos militares, as condições eram extremamente difíceis e a vitória alemã parecia iminente. Todavia os efetivos para Stalingrado foram aumentados, contando com o comando de vários generais soviéticos, unidades da NKVD e a chegada de soldados de todas as partes da URSS. Hitler chegou a declarar uma guerra pessoal entre ele e Stalin, tornando-se assim um conflito entre o Vozhd e o Fürrer. A população civil fugia, todavia não era possível que uma boa parte escapasse, fazendo com que muitos civis sofressem com a guerra ou se juntassem à luta como partizans (guerrilheiros comunistas).

Efetivos soviéticos não paravam de chegar, chegou-se a fazer uma ponte alguns centímetros abaixo do rio Volga (a primeira da história), trens blindados chegavam trazendo divisões do Exército Vermelho, uma dessas, a 284ª divisão do 62º exército, trazia dentre vários soldados um pastor de ovelhas siberiano que habitava a região dos Montes Urais. Nascido em Katav-Ivanovskogo, era órfão desde cedo e foi ensinado à atirar desde os 5 anos de idade por seu avô caçador de lobos. O nome deste soldado era Vassili Grigorievitch Zaitsev ("lebre" em russo). Ele chegou em Stalingrado no dia 20 de setembro de 1942, com 27 anos de idade.

Quando chegou em Stalingrado ele não tinha um rifle como muitos outros soldados soviéticos. Devido à falta de munições muitos soldados tinham de ficar atrás de outro que tivesse um rifle para pegá-lo quando este morresse, recebendo apenas uma tira de balas. Vassili recebeu apenas as balas, mas não ficou com o rifle. Avançando pela cidade junto da sua pequena tropa (que foi facilmente vencida pelos alemães entrincheirados), Vassili escondeu-se entre os cadáveres dos seus camaradas mortos e segundo relatos do livro Enemy at the gates ("O Círculo de Fogo", transformado em filme) apossou-se de um rifle de um soldado morto e atirando apenas quando soava o som das explosões (afim de que não fosse ouvido o barulho do rifle), abateu 5 alemães que estavam em um estabelecimento próximo sem ser percebido e sem levar um só tiro, o que conquistou a atenção do comissário político e jornalista Igor Danilov.

Naquele momento em que o jovem soldado Vassili mostrava proezas heróicas abatendo os soldados alemães, Nikita Khruschev chegava à Stalingrado para cobrar dos líderes militares e dos comissários um postura mais agressiva. Uma das sugestões para um melhor desempenho dos soldados, agoniados com a provável vitória das tropas do III Reich, partiu de Danilov, que sugeriu a publicação do jornal militar novamente e a exaltação do sacrifício pessoal e a dedicação à causa comunista, mostrando como exemplo aquele que conhecera de perto, o lendário atirador de elite Vassili Zaitsev. Tal proeza funcionou e Vassili foi promovido para a divisão dos atiradores de elite, seu nome foi publicado nos jornais militares e ainda se tornou a grande sensação das primeiras páginas do jornal "Pravda", o qual era lido por milhões de pessoas na URSS, dando grandes esperanças ao povo soviético e aos soldados do Exército Vermelho.

De fato as proezas de Zaitsev eram lendárias, por exemplo, no período de apenas 10 dias ele já havia eliminado cerca de 40 oficiais alemães de alta patente, corajosa atitude essa que fizera dele também o mais falado nas rádios soviéticas e o mais popular soldado da cidade e um dos mais da URSS (senão o mais popular). Foi devido à necessidade de mais soldados como ele, que Danilov encarregou Vassili de treinar e instruir outros atiradores de elite, dentre os quais a oficial russa-americana Tatiana Tchernova, que voltou dos EUA para a URSS quando a guerra havia começado. Obcecada pelo desejo de vingança contra os nazistas que executaram seus avós, Tania perdera também seus pais durante a guerra, e por isso sob instruções de Vassili Zaitsev tornou-se uma exímia atiradora de elite, matando um grande número de soldados alemães junta com seu instrutor. Tania Tchernova também veio a tornar-se a namorada de Zaitsev, vindo a iniciar um relacionamento duradouro. Ele chegaria a ser ferida por uma mina atirada pelos nazistas. Além de Tania, Vassili também deu eficaz treinamento à outros atiradores, procurando sempre compartilhar com estes seu conhecimento e táticas que utilizava na taiga siberiana.

Vassili Zaitsev era um exímio atirador de elite, com seu rifle Moisin-Nagant 91/30 (na época um dos melhores a disposição do Exército Vermelho) foi capaz de abater só em Stalingrado 242 nazistas, dentre soldados, oficiais e até atiradores de elite alemães, com os quais travou árduas lutas, sendo a mais épica dessas, a luta contra o major alemão Heintz Thorvald, também conhecido como Major Erwin König. Segundo os soviéticos ele era da escola alemã de atiradores de elite.

As atividades dos atiradores de elite soviéticos causavam grande intranqüilidade aos generais alemães em Stalingrado onde já tinham matado mais de mil soldados alemães. Diante das constantes ameaças, os alemães começaram a organizar unidades anti-atiradores de elite. Certa uma das patrulhas russas trouxe um prisioneiros para fins de identificação que disse que o Chefe da escola alemã de atiradores de elite, Major Konig, tinha chegado de avião de Berlim e fora incumbido, antes de tudo de matar o mais eminente dos atiradores soviéticos, Vassili Zaitsev.

Como se sabe os soviéticos escreveram muito sobre os feitos de Vassili Zaitsev. Alguns dos panfletos cairam em mãos alemães, que estudaram os métodos dos atiradores soviéticos e tomaram medidas ativas para combatê-los. Logo quando um dos atiradores soviéticos matava um ou dois oficiais inimigos, a artilharia e os morteiros alemães, escondidos, começavam a disparar, o que forçava os atiradores de elite soviéticos a mudarem apressadamente de posição.

Na verdade existe uma grande dúvida se o Major Erwin König/Heintz Thorvald existiu de fato e se eram a mesma pessoa. Esta dúvida existe porque Erwin König. só aparece e muito na propaganda russa, mas não encontramos nenhuma documentação na Alemanha as respeito dele. Tanto Erwin König quanto Heintz Thorvald eram nomes alemães bem comuns na época da guerra. É interessante observar que no registro de guerra russo o adversário de Vassili Zaitsev é chamado de Erwin König e nas suas memórias o atirador de elite o chama de Heintz Thorvald. Alguns dizem que o temível atirador de elite alemão foi fabricado pela imprensa soviética para representar o exército alemão, ou os atiradores de elite como um todo e que o objetivo do duelo era a de levantar o moral soviético.

Os soviéticos diziam que Erwin König. era um rico caçador de veados da Bavária que foi enviado a Stalingrado apenas com a missão de abater Vasha (como também era conhecido Vassili), fato que comprovava sua fama até mesmo entre os soldados alemães, o que fazia dele um arcanjo para os soviéticos e demônio para os alemães. Ambos posicionados, o duelo entre o comunista pastor de ovelhas e o nazista caçador de veados seria um dos épicos episódios da batalha de Stalingrado, pois além de sua extensa duração foi marcado por momentos em que ambos estiveram próximos da morte, momentos em que a sorte esteve presente, em que a ânsia e a angústia estiveram presente nos corações daqueles que aguardavam os resultados daquele duelo, fossem civis ou militares, enquanto que com toda cautela, mas sobretudo com calma os atiradores souberam levar tal conflito.

Uma das desvantagens de Vasha era o fato de que seus atos haviam sido observados, sendo levados ao conhecimento do Comando da Wermatch e conseqüentemente de König, que passou a caçar o atirador russo.

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ATARAXIA, VIRTUDE OU DOENÇA?

Ataraxia (Ἀταραξία "tranquilidade") é um termo grego usado por Pirro e Epicuro para um estado lúcido, caracterizado pela ausência de preocupação.

Para os epicuristas,a ataraxia era sinônimo da única verdadeira felicidade possível para uma pessoa. Significa o estado de tranquilidade robusta que deriva de evitar a fé na vida após a morte, sem temer os deuses porque eles estão distantes e despreocupados conosco, evitando a política e as pessoas vexatórias, cercando a si mesmo de amigos confiáveis ​​e afetuosos e, o mais importante, sendo uma pessoa afetuosa, virtuosa, digna de confiança.

Para os pirrônicos, devido à própria incapacidade de dizer quais impressões sensoriais são verdadeiras e quais são falsas, é a quietude que surge da suspensão do julgamento de crenças dogmáticas ou de qualquer coisa não-evidente e da continuação em inquirir. Da experiência foi dito ter caído sobre o pintor Apeles que estava tentando pintar a saliva espumosa de um cavalo. Ele foi tão mal sucedido que, em um acesso de raiva, desistiu e jogou a esponja, com a qual estava limpando seus pincéis, no ambiente, deste modo produzindo o efeito de espuma do cavalo.

Os estóicos, também, procuravam tranquilidade mental, e viram a ataraxia como algo a ser desejado e freqüentemente fizeram uso do termo, mas para eles o estado análogo, atingido pelo sábio estóico, foi apatheia (apatia) ou ausência de paixão.

Ataraxia é a capacidade de manter-se sereno, impertubável diante dos contratempos e lutas da existência. É o que todos desejamos, principalmente na época conturbada em que vivemos.

Epicuro ensinava que a ataraxia está associada ao prazer, não aquele sustentado pelo vício e a paixão, na volúpia dos sentidos, mas o prazer como sinônimo de bem-estar, com a superação dos males do corpo e das perturbações da alma.

Dizia Epicuro:
“O bem é fácil de conseguir, o mal é fácil de suportar, a morte não deve ser temida, os deuses não são temíveis”.

Segundo o filósofo, a frugalidade está na base dessas realizações: comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, superar a dor, sustentando a saúde do corpo com a moderação e o empenho por conservar a mente tranqüila com o cultivo dos bons pensamentos.

Nada de excessos que adoecem o corpo, nada de paixões que perturbam a alma.

Os desvios da filosofia epicurista nasceram das concepções materialistas que a norteavam.

Epicuro considerava que a alma perece com o corpo. Por isso não se devia temer a morte. Tudo terminaria na sepultura.

Fica difícil cultivar a simplicidade e moderação sem conceber que a alma é imortal, que responderá um dia por suas ações.

Tudo me é lícito se concebo que tudo acaba na sepultura, sem cobranças, nem conseqüências.

Na atualidade, vivemos uma situação semelhante.

As religiões tradicionais pregam a simplicidade, o desprendimento, o cultivo de valores espirituais, mas falta-lhes o essencial: a capacidade de motivar seus profitentes com uma visão objetiva da sobrevivência e das realidades espirituais.

É tudo muito vago, fantasioso, condicionado à fé, sem compromisso com a racionalidade.

Por isso as pessoas dizem crer, mas não se dispõem ao cultivo dos valores que conduzem à ataraxia.

O Espiritismo revive o pensamento epicurista num patamar mais elevado, oferecendo-nos uma visão objetiva da sobrevivência e das realidades espirituais, mostrando-nos ser indispensável o cultivo da simplicidade para que não se complique o nosso futuro.

E não basta buscar os prazeres mais simples, na base do beber quando se tem sede ou comer quando se tem fome, cuidando bem do corpo, ou cultivar os bons pensamentos para a estabilidade da alma.

É preciso orientar nossa existência no sentido de favorecer o bem dos outros, segundo a orientação evangélica. Dar alimento ao que tem fome, agasalho ao que tem frio, medicação ao enfermo, instrução ao ignorante, consolo ao aflito, orientação ao transviado...

Servir ! Esta a suprema realização, capaz de nos garantir o bem-estar na Terra e no Céu.

Experimente leitor,
Você verificará que no empenho de servir está o mais legítimo caminho da ataraxia

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CARTA DO CHEFE INDÍGENA SEATTLE AO PRESIDENTE AMERICANO

Carta do Cacique americano ao Presidente dos Estados Unidos da América

Em 1854, o Governo dos Estados Unidos tentava convencer o chefe indígena Seatle a vender suas terras. Como resposta, o chefe enviou uma carta ao Presidente Franklin Pierce, que se tornou um documento institucional importante e que merece uma reflexão atenta pois é uma lição que deve ser cultivada por esta e pelas futuras gerações.

Decorridos quase dois séculos da carta do cacique indígena Seatle ao Presidente do Estados Unidos, seus ensinamentos permanecem atuais e proféticos, para todos aqueles que sabem enxergar no fundo do conteúdo de sua mensagem.

A carta do cacique Seatle é uma lição inesgotável de amor à natureza e à vida, que permanece na consciência de milhões de pessoas em todas as partes do mundo. É o hino de todos aqueles que amam a natureza e tudo o que nela vive. A cada leitura, renovamos os ensinamentos que ali estão. Serve para ler e reler e passar adiante para que todos a conheçam.

No Brasil, existiam em torno de 4 milhões de indígenas, quando os colonizadores chegaram. Hoje, restam cerca de 300 mil! Embora o indígena tenha contribuído de forma essencial para a miscigenação da raça brasileira, é certo que foram sendo expulsos de suas terras pelos exploradores e eliminados por doenças contraídas através do convívio com os brancos.

Atualmente, continuam sofrendo a invasão de suas terras por madeireiros, fazendeiros e garimpeiros, seus principais algozes.

É fundamental que seja preservada a riqueza de sua cultura, suas danças, ritos, conhecimentos sobre as plantas e animais e as formas de viver em harmonia com a natureza. Os indígenas possuem uma sabedoria milenar que precisamos aprender a cultivar e preservar.

A história dos indígenas em cada país onde existiam, antes do homem branco, é diferente nas suas particularidades, mas no seu conteúdo são iguais. Nos Estados Unidos ou no Brasil, os problemas enfrentados pelos indígenas foram os mesmos. Daí esse sentimento de solidariedade e cooperação que existe entre os diferentes povos indígenas e essa sabedoria milenar da qual todos nós temos muito que aprender.

CARTA DO CHEFE INDÍGENA SEATLE
“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro (...).

Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem deve tratar os animais desta terra como seus irmãos (...)
O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.

Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a Terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo estão cuspindo em si mesmos.

Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.

O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos ( e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ela é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu Criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.

Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está a árvore? Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência.

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los?

Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho (...).

Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas a idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los?

Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho (...).

Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, devem ensinar às crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.

Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa (...). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei. Nossos costumes são diferentes dos seus.

A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.

Não há lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.”

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa (...). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

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O SETOR ENERGÉTICO APÓS O 11 DE SETEMBRO

A Energia Após 11 de Setembro

*Seth Dunn

Os trágicos ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono, e a reação militar subseqüente, suscitam questões espinhosas sobre a política energética dos Estados Unidos. Como se enquadra a dependência de importações de petróleo na presença militar dos Estados Unidos na Arábia Saudita – um dos principais fatores de indignação dos fundamentalistas radicais islâmicos? Como poderá a alta e contínua dependência do petróleo importado do Oriente Médio complicar os esforços americanos para erradicar o terrorismo da região? Serão as usinas nucleares alvos potenciais de futuros ataques terroristas?

Embora não existam respostas fáceis para questões como estas, é evidente que a atual infra-estrutura energética dos Estados Unidos apresenta várias vulnerabilidades. Estas incluem o risco de interrupção do suprimento de petróleo de regiões politicamente voláteis, o perigo de apagões caso usinas sejam atingidas, e o risco de exposição a acidentes em usinas nucleares.

A boa notícia é que duas tendências de longo prazo, em andamento nos sistemas mundiais de eletricidade e energia – em direção à micro-energia e ao hidrogênio – poderão ajudar a minimizar essas vulnerabilidades.

A micro-energia, ou geração distribuída, limita o risco de interrupções no suprimento. Os terroristas enfrentariam sérias dificuldades para atingir centenas de células combustíveis ou painéis solares dispersos em porões, quintais e telhados. O hidrogênio, o elemento mais leve e abundante do universo, é visto cada vez mais pela indústria como o supremo condutor de energia.

A tecnologia que viabilizará o hidrogênio é a célula combustível que combina hidrogênio com oxigênio para produzir eletricidade e água. As células combustíveis estão sendo hoje desenvolvidas intensamente como sucessoras das baterias, das usinas elétricas e do motor de combustão interna. Derivado inicialmente do gás natural e posteriormente da energia renovável, o hidrogênio é um prenúncio de uma fonte de energia limpa e doméstica, que poderá minimizar a dependência do petróleo.

Embora a tendência em direção à micro-energia e ao hidrogênio já estivesse em andamento antes de 11 de setembro, estes eventos – e as dificuldades enfrentadas na reação aos mesmos – ilustram as conseqüências do não-engajamento num esforço mais concentrado de ação política para acelerar a introdução destas soluções energéticas promissoras. Na realidade, tais eventos reforçam o argumento para um esforço, numa escala igual ao programa Apollo, para o desenvolvimento de uma infra-estrutura para produção, fornecimento e uso do hidrogênio. Embora haja custos na construção de uma economia de hidrogênio, devem ser colocados na balança em contraposição ao risco de se continuar a depender das importações de petróleo do Oriente Médio – que detém mais de 65 porcento das reservas petrolíferas mundiais.

Além da melhoria da segurança energética, um sistema de micro-energia e hidrogênio poderá proporcionar eletricidade aos 1,8 bilhões de pobres em todo o mundo que não dispõe de acesso à energia moderna – uma fonte comum de inquietação social em muitas regiões. Poderá também aliviar os problemas da poluição atmosférica urbana e preparar o terreno para uma economia energética de baixo-carbono, benigna ao clima. E um sistema de micro-energia e hidrogênio oferece oportunidades econômicas gigantescas para empresas e países arrojados que percebem a vantagem estratégica da mudança para novas fontes energéticas – como Winston Churchill percebeu, quando mudou o combustível da Marinha Britânica durante a II Guerra Mundial, do carvão para o petróleo.

*Seth Dunn é pesquisador associado do WWI

Fonte: www.wwiuma.org.br

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MITO, CARÁTER E CONTEÚDO DO MITO

Panorâmica geral
O termo mito deriva do grego mythos (“palavra”, ou “discurso”), cujo exato significado se es-tabelece na contraposição com o termo logos. Também este último termo pode ser traduzido com “palavra”, mas somente no sentido de uma palavra que provoca discussão, no sentido de um “argu-mento”. Mythos, quando significa “mito”, é o termo que indica uma história que trata dos deuses e dos seres sobrehumanos. O mito é uma expressão verbal do sagrado: refere realidades e eventos das origens do mundo que mantêm a sua validade como fundamento e como meta de tudo o que existe. Portanto, o mito serve de modelo para a atividade humana, para a sociedade dos homens, para a sua sabedoria e conhecimento. O termo mitologia se refere ao inteiro corpus dos mitos presentes em uma determinada tradição. Mas usa-se também para indicar o estudo dos mitos.

A definição que oferecemos contém alguns elementos sobre os quais nem todos os especialis-tas estão de acordo ou põem a mesma ênfase. Contra o uso do termo sacro, por exemplo, se poderia dizer que ele tenta definir o objeto, o “mito”, em ermos de alguma coisa que falta de clareza mais ainda do que a definição. Para o historiador das religiões, contudo, não existe incerteza sobre este ponto. A distinção entre “o sagrado” e “o profano”, enfatizada pelo sociólogo e filósofo francês, Émi-le Durkheim (1858-1917), se funda na observação banal: todas as tradições e todas as sociedades hu-manas se voltam ao sagrado e o distinguem de alguma forma. O problema não é a sua realidade últi-ma ou metafísica. O que se coloca em primeiro lugar não é o caráter mais genérico do sagrado, mas o fato que o sagrado é distinto das coisas mundanas, ordinárias, profanas e quotidianas. Ao comunicar o sagrado, o mito torna acessível através das palavras o que não é acessível por nenhuma outra forma, e as palavras utilizadas são diferentes de todas as outras palavras. Além disso, mais em geral, elas pos-suem uma autoridade extraordinária e são distintas do discurso comum. A linguagem do mito não provoca discussão: o mito não demonstra, mas revela. O exemplo mais conhecido no Ocidente, isto é, as palavras que abrem o Gênesis: “No princípio Deus criou o céu e a terra”, são bem diferentes das palavras de qualquer capítulo teológico sobre a “doutrina da criação”: este último, de fato, olharia, ao analisar, a sistematizar e a discutir os atos criativos de Deus, não simplesmente revela-los. As pala-vras do mito, além disso, devem dar razão de sua validade, onde o mito é a sua validade.

O mito, que tenha como objeto as ações da divindade ou outros eventos extraordinários, repor-ta-nos sempre aos “inícios de todas as coisas”. Por isso a cosmogonia, isto é, o nascimento do mundo, é um tema mítico muito freqüente. Em todo caso, a época na qual o mito nos reporta é bem diverso da nossa: trata-se de um tempo situado para além de toda percepção humana e, portanto, os eventos e as realidades consideradas são totalmente diferentes dos fatos dos quais os homens se ocupam em sua existência quotidiana. A autoridade do mito não é, portanto, simplesmente análoga às várias autorida-des terrenas.

O mito representa uma das três formas de expressão religiosa: o discurso sagrado, os atos sa-grados e os lugares sagrados. Como tal, aparece em muitas tradições al lado dos lugares e dos objetos sagrados (ou, aos símbolos) e aos atos sagrados (isto é, aos ritos cultuais). O motivo pelo qual os mi-tos atraem a atenção dos estudiosos é o meio do qual se servem: as palavras. Pode-se esperar que ilus-trem a inteira vida religiosa de uma comunidade, lançando luz especialmente sobre ações rituais e sobre objetos sagrados, que por seu lado não falam, ou falam raramente e de forma pouco clara. O templo como eixo central ou o mastro sagrado, por exemplo, podem ser de enorme importância na vida religiosa de uma certa comunidade, mas muitas vezes somente um mito explica o seu significa-do, a sua origem, o seu fundamento e a razão de seu papel central na vida religiosa daquela comuni-dade.

Mito, símbolo e ritual
O fato de que a modalidade de expressão do mito seja aquela verbal pode, em parte, explicar numerosos problemas que o tema destacou, da antiguidade aos nossos dias. Os mitos foram conside-rados como sendo tentativas conscientes de velar proposições racionais, ou alegorias de eventos histó-ricos, fantasias poéticas, expressões inconscientes de desejos interiores, esquemas mentais de classifi-cação, estruturas sociais. Muitas tentativas dos estudiosos revelaram-se úteis para iluminar algumas relações, mesmo se nenhuma dessas tentativas conseguiu alcançar uma explicação global e totalmente satisfatória. Uma explicação deste tipo, aparece, impossível de ser concorde, assim como acontece para outros inesgotáveis objetos de pesquisa, como “a arte” ou “o universo”.

Mas exatamente como no caso destes últimos objetos, a nossa pesquisa não deve limitar-se a acumular os resultados das diversas abordagens culturais e histórias especializadas e de visões meto-dológicas fragmentárias. Ao contrário, cada pesquisa e qualquer autêntica ciência da mitologia, deve levar seriamente em consideração também o complexo da expressividade religiosa no âmbito da qual os mitos explicam a sua função. Evidentemente, os mitos são linguagem, discurso e literatura. Natu-ralmente podem revelar-nos alguma coisa da sociedade na qual foram formulados. E, em particular, podem testemunhar itinerários humanos mais profundos dos que emergem na vida civil. A expressi-vidade religiosa, na sua tríplice forma de discurso sagrado, dos atos sagrados e dos lugares sagrados, permanece essencialmente unitária e seria melhor considerar estas três formas, que distinguimos, co-mo simples aspectos que se nos manifestam: a nossa diferenciação entre as três formas é apenas exte-rior, conceitual e formal. As três formas, de fato, acontecem sempre juntas, em cada cultura. Podemos unicamente constatar que em geral uma das três formas assume um papel predominante, razão pela qual algumas civilizações apresentam uma grande riqueza de mitos, outras de rituais, outras de luga-res sagrados. São, portanto, os documentos que muitas vezes nos impelem a examinar isoladamente o mito, ou uma das três formas de expressão. Nestes casos, concentrar a nossa atenção sobre os mitos certamente será útil dentro da finalidade de nossa pesquisa.

Também uma impostação sociológica, psicológica ou de outro tipo pode igualmente ser escla-recedor, mas deve-se evitar que a coerência de uma tradição religiosa termine por desmoronar entre as fendas de uma tal impostação. Como no caso de um computador, cujas respostas dependem essen-cialmente das perguntas feitas, cada uma das nossas ciências e de nossas disciplinas pode fornecer respostas somente em conformidade à própria definição dos problemas. O problema ‘semântico’ do historiador das religiões, por exemplo, não representa uma simples extensão da lingüística. A propósi-to da definição de religião, prescindindo dos detalhes, que podem ser os mais diversos, tal definição deve ter de alguma forma a ver com a “totalidade” da orientação humana, e por isso, com as certezas e assunções fundamentais relativas a cada uma pesquisa particular e fragmentária, atividade ou pro-dução. O historiador das religiões trata esta “totalidade” não como na filosofia, refletindo sobre as premissas para elaborar um pensamento e uma ação coerentes e justificáveis, mas estudando o teste-munho dos documentos religiosos nas tradições humanas. A pergunta fundamental não é “qual é a verdade” mas “o que as sociedades, as civilizações e as comunidades julgaram necessário indicar e preservar como valor fundamental da sua inteira existência”. Aqui o estudo dos mitos se torna o ar-gumento óbvio do estudo no âmbito da inteira documentação religiosa.

Unidade do mito e variabilidade da cultura
Enorme é a variedade das culturas, de suas línguas, de seus meios de produção e de sua avali-ação daquilo que é essencial. Tal variedade impulsiona a procurar uma explicação dos mitos na espe-cificidade de cada sociedade e, desta forma, se termina, evidentemente, por obter muitas respostas a muitas perguntas. Ignorar a especificidade das diversas tradições seria o pior entre os erros de méto-do. Contudo, mesmo depois de ter estabelecido este princípio, é essencial recordar que o mito, por definição, ressalta a realidade e os eventos aparentemente na origem e no fundamento do mundo. Isso esconde uma dificuldade sob a superfície. “O mundo” sugere de um lado uma totalidade unitária, mas muitos são os mitos que pertencem a uma multidão de culturas e de épocas. Seria necessário concluir que a unicidade do mundo representado nos mitos é, no melhor dos casos, uma ficção coleti-va característica de uma única tribo. Mas esta conclusão seria incorreta.

O problema relativo à origem do mundo e àquilo pelo qual o mundo permanece, fundamen-talmente não requer, uma fórmula imutável. Não leva a uma resposta que proíbe a variedade, mas a uma resposta que a compreende. Os mitos não variam apenas de cultura para cultura, mas cada um deles é, de alguma forma, aberto à transformação. Os alimentos e as provisões fundamentais e os ins-trumentos para procura-los são, por exemplo, conteúdos que freqüentemente acontecem nos mitos cosmogônicos: tais elementos essenciais à existência humana diferem muito nas comunidades de ca-çadores e coletadores, nas sociedades arcaicas de cultivadores e de pastores e nas tradições históricas mais complexas. De qual forma tais elementos são essenciais para o mito cosmogônico? A resposta é que são ao mesmo tempo essenciais e totalmente insuficientes, porque o problema vai muito mais longe do que mera nutrição e dos outros interesses do homo faber fornecido pelos requisitos da sua cultura específica. Todos os mitos levam em consideração estas necessidades absolutas e assinalam-lhes um papel especial na origem do mundo. O problema que o leitor moderno precisa enfrentar é semelhante ao da física moderna, na qual duas diversas teorias da luz – a ondulatória e a das partícu-las – podem ser ambas igualmente válidas, apesar de não serem conciliáveis. A física, então, preferiu empregar a noção de complementariedade, em vez de lançá-las em disputas infrutuosas na recíproca exclusão das duas teorias. Os problemas teóricos da história das religiões não se limitam, naturalmen-te, a um ou a poucos casos. Contudo, o problema, do ponto de vista epistemológico, se revela análo-go: o que interessa não é o número exato das diferentes explicações.

Apesar da semelhança entre uma ciência como a física e a história das religiões, a situação desta última é muito diversa. A multiplicidade das mitologias, de fato, tem conseqüências metodoló-gicas imediatas e de importância fundamental desde o princípio das nossas pesquisas, no momento em que tal multiplicidade é imediatamente observável e não constitui simplesmente um sub-produto das conclusões finais. Cada pesquisador precisa colocar-se no contexto de uma determinada tradição religiosa: uma escolha absolutamente necessária para adquirir alguma prospectiva em relação a um mito qualquer. Não há “objetividade” que equivalha à neutralidade; não há compreensão se o sujeito eliminou a si mesmo. Esta “subjetividade” muito necessária não constitui uma posição excêntrica individualística ou um solipsismo: é simplesmente o reconhecimento da única base na qual um fenô-meno religioso pode ser individuado.

Após esta comparação metodológica entre a história das religiões e a física, podemos afirmar que: 1) O mundo das religiões, ao produzir os seus mitos, não está distante das ciências naturais como se pensou por muito tempo nos estudos clássicos e sociais que se desenvolveram na linha da obra do filósofo e historiador alemão Wilhelm Dilthey; 2) O mundo das ciências pode ficar de alguma forma influenciado pela mitologia, mesmo contra as intenções dos cientistas; 3) Na medida em que estas duas primeiras afirmações têm significado, deveriam ser consideradas como complementares. Quanto ao que se refere ao valor das primeiras duas afirmações, isso dependerá do “sujeito” ou do “observa-dor”, na base da reflexão e da oportunidade. A “complementariedade” entre as duas afirmações é uma conclusão diferente: é o resultado de uma ulterior reflexão “secundária” e se remete à esperança que necessariamente acompanha a continuação da existência e da pesquisa.

É interessante para o historiador das religiões que se ocupa de mitos, constatar que o antigo problema da unidade da natureza suscita atualmente um renovado interesse entre os cientistas. Não tem motivos para tirar conclusões apressadas ou comparar tal interesse, nas suas várias expressões, a certos mitos antigos; contudo, exatamente este retorno de interesse é por si mesmo fascinante e susci-ta a esperança de uma superação das velhas e inúteis barreiras entre “as ciências humanas” e “as ciên-cias”.

O tema da simetria recebeu muita atenção e tem raízes mais profundas na estética; também neste caso, a ligação com a mitologia parece mais difícil de definir. Segundo Santo Agostinho, a si-metria é uma entidade racional, no momento em que não acontece na natureza, mas somente nos pro-dutos do homem. Graças à ela Deus criou o homem à própria imagem. Atribuir o pensamento de A-gostinho à filosofia, à ciência ou à mitologia dependerá da rede dos pressupostos aos quais se faz re-ferência.

No estudo científico da política, o poder é um conceito necessário. Naturalmente trata-se de uma abstração, porque os detentores do poder não são estéreis tubos de laboratório cheios deste ele-mento. A religião, com os seus elementos míticos, reveste um papel fundamental no exercício do con-trole político: o rei indiano Bimbisara apoiava a primitiva comunidade monástica do Buda, ao passo que o soberano britânico leva até hoje o título oficial de defensor fidei.. No século XIX e XX vimos um crescimento das teorias, dos slogans e das ideologias políticas. Em todos estes casos a colocação em jogo à a natureza da religião e do mito, natureza que, contudo, não se apresenta nunca na sua pu-reza primitiva, mas sempre em um estado de mistura. O fato que o homem seja um ser religioso (além de político, filosófico e coletor de conhecimentos), não constitui necessariamente um fato positivo ou fascinante. Dizer que o homem é homo religiosus não significa necessariamente dizer “alguma coisa bela”, A “unidade do mito”, nas diversas culturas e nas diversas pesquisas sobre o homem, representa a afirmação de um problema maior do que a descoberta de um imaginário núcleo misterioso, puro, cognoscitivo e dialógico, válido para toda a existência humana.

Mircea Eliade, mais do que qualquer outro, mostrou o significado fundamental dos mitos cosmogônicos, um significado que aparece evidente na maior parte das tradições. Qualquer que seja o argumento dos outros mitos – aqueles relativos à origem dos animais, das plantas, das instituições ou de qualquer outra coisa – sempre tem por suposto que o seu fundamento resida nos mitos da criação do universo. Também os mitos escatológicos, que aparentemente colocam um “fim” em contraposi-ção ao princípio do mundo, não omitem sua relação à cosmogonia. Todas as escatologias se manifes-tam como renovação de uma origem. É bem conhecida a referência a Jesus Cristo como ao “novo Adão”. O movimento protestante, por seu lado, se empenhou em restabelecer a forma pura e originá-ria do Cristianismo. Até no marxismo (especialmente segundo as idéias do jovem Marx), o típico mito escatológico da sociedade sem classes resulta explicitamente conexa com a retomada das condi-ções originárias da humanidade, isto é, com uma sociedade sem propriedade privada.

Caráter e conteúdo do mito
À primeira vista, os mitos têm muito em comum com algumas formas de literatura popular. Como as fábulas, por exemplo, eles narram eventos “sobrenaturais”; como as lendas e as sagas (con-tos) tratam de figuras extraordinárias; e assim por diante. A autoridade dos mitos é claramente distin-guível da característica de outras narrações. O mito, de fato, se apresenta tipicamente como narração de um tempo totalmente diferente daquele de nossa experiência (“no princípio...” ou “antes que o céu e a terra fossem criados...”): ao passo que na fábula tradicional, mesmo que narre eventos maravilho-sos, inicia com “era uma vez...”, referindo-se a um tempo semelhante ao nosso. Os heróis dos contos e os protagonistas das lendas são, sem dúvida, seres superiores a todos os humanos, mas seu tempo é semelhante ao tempo histórico da nossa experiência.

A épica representa um caso particular, uma vez que seguidamente constitui para nós uma fon-te primária para o conhecimento dos mitos: veja-se, por exemplo, o papel da Ilíada e da Odisséia na tradição ocidental. E, contudo, a épica enquanto tal, não possui a autoridade que é típica dos mitos, se se exclui a sua apreciável função pedagógica, exercita genericamente sobre a sociedade. Os mitos inseridos nos textos épicos e as referências mitológicas contidas em tais textos podem ser considera-dos elemento de um esquema educativo: graças a eles cada um deveria assimilar os modelos funda-mentais e importantes da tradição religiosa. Mas a épica, além da instrução, provê também a atenção de seus ouvintes. Não se pode dizer o mesmo dos mitos, ainda que seja possível falar do “estilo” dos mitos, estilo que tende a fascinar e captar a atenção.

Os temas do mito são inumeráveis. Seus personagens são muitas vezes deuses e deusas, às ve-zes animais, plantas, montanhas, ou rios. Contudo, em cada caso, o mito liga direta ou implicitamente a sua exposição de eventos singulares a um tempo bem diferente, no qual coloca a própria autoridade. A grande variedade de mitos pode ser analisada melhor se nos colocamos em relação com os perso-nagens ou com os eventos que são descritos, mas em relação às diferentes culturas nas quais surgi-ram: considerando-os corolários das estruturas culturais, mesmo se não necessariamente resultados de condicionamentos culturais. As informações mais importantes sobre os mitos, sobre seus temas e sua classificação, são encontrados mais na cosmogonia.

Estrutura e estilo
Procuraremos sintetizar o que caracteriza as narrações míticas e o que constitui o seu fim.

Quanto ao que se refere a seu fim, em primeiro lugar, é necessário dizer que os mitos, contrariamente à opinião tradicional, não são essencialmente etiológicos (do grego aitia, “causa”), no sentido que não são “Explicações das origens ou das causas”. O termo etiologia pode ser usado somente aderindo ao significado que os Gregos atribuíam até então ao termo aitia: aquilo de “condição primordial”. As-sim, o termo pode também referir-se às condições originárias dos primeiros princípios. Mas este par-ticular significado não é aquele presente na mente dos estudiosos ao se referirem à etiologia. Até pou-co tempo atrás, muitos estudiosos viam nos mitos tentativas pré-científicas de individuar as causa do universo, dos fenômenos naturais e de tudo aquilo que atualmente se ocupam os cientistas. Mas estes estudiosos transcuravam o fato indubitável que semelhante interesse científico pela causalidade é uma característica precisa da história moderna, que coloca sua confiança no progresso tecnológico. Não foi simples coincidência, por exemplo, se James Frazer propôs a “fertilidade” como explicação fun-damental dos infinitos mitos e ritos de cada parte do mundo pouco tempo depois da introdução, na tecnologia agrícola, dos fertilizantes artificiais. Esta leitura dos mitos, amplamente difundida, que via neles uma suposta natureza “ pré-científica”, contrasta, por sua vez, com a explicação que afirma que os mitos eram simples textos de acompanhamento dos ritos. Mas esta última teoria implicava também a idéia que os rituais fossem somente atos mágicos, anteriores ao ‘homem moderno’. Todas estas teo-rias representam simples variações sobre o tema da “mentalidade pré-lógica, um dos produtos mais duradouros do evolucionismo cultural, famoso graças à sua elaboração por parte do filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl.

Muitas vezes o mito é recitado numa linguagem particular, arcaica, que difere da linguagem comum. O mito da criação dos Ngaju-Dayak de Bornéu, oferece um exemplo deste fenômeno. A sula linguagem incomum não visa mantê-lo secreto, mas serve para sublinhar o seu significado. A narra-ção mítica funda não somente o mundo em geral, mas ao mesmo tempo, o seu interior, o território, fornecendo uma orientação seja aos vilarejos como lugares nos reinos celestiais. Fundamenta também as divisões sociais e suas funções, como os princípios do sistema legal. Ele é narrado em forma de poesia lírica, como a maioria dos mitos da Ásia sul-oriental. Até agora o mito cosmogônico é recitado em ocasiões particulares, como sucedia no Próximo Oriente antigo por ocasião da coroação de um rei ou da renovação periódica da existência na festa do Ano Novo. A criação do mundo constitui o mode-lo, evocado por seu poder fundamental e fundante.

Como pode ser expressa a realidade que subjaz a cada existência? Como pode ser expresso al-go tão ‘não agarrável’? cada mito responde a estas perguntas de sua forma, no contexto da própria cultura e das suas exigências vitais. Os aspectos particulares do mito são o resultado da capacidade singular da linguagem em ir para além do ordinário, do específico do mundo e dos limites do conhe-cimento e da percepção comum.

A utilização, por parte do mito, de uma linguagem arcaica, de alguma forma artificialmente construída, é uma característica presente não apenas entre os Ngaju-Dayak, mas em outros lugares. Em culturas e em circunstâncias diferentes, e com diferentes motivações, sucedem fenômenos análo-gos: O uso do latim na liturgia da Igreja católica; a importância do eslavo eclesiástico na história da Igreja ortodoxa; o emprego cultual do sânscrito no hinduísmo; finalmente, no antigo mundo babilôni-co, a importância atribuída ao estudo e ao uso da língua sumérica, ainda muitos séculos depois que língua deixou de ser falada. Mesmo que não seja um aspecto universal, esta singularidade de lingua-gem é uma característica do mito que revela a sabedoria de uma tradição que merece ser salvaguarda-da. Entre as outras características, está presente em muitas tradições a precaução especial de recitar os mitos somente em momentos especiais e em lugares especiais. Desta forma, se compreende claramen-te que os mitos não são assimiláveis às histórias comuns. Esta sabedoria da natureza especial dos mi-tos se nota, por exemplo, na narração popular dos índios Wichita, da América do Norte, que narra a competição de um coiote e o seu adversário. Os dois concorrentes se desafiam a narrar histórias e o vencedor será aquele que consegue mais. Naturalmente vence o coiote, cujo repertório é inexaurível: ele é capaz de inventar novas histórias como lhe agrada. Seu adversário, que fica derrotado, conhece somente histórias “não inventadas” e, portanto, narra histórias verdadeiras, que são em número limi-tado. As histórias verdadeiras são, evidentemente, aquelas que nós chamamos “mitos”.

Uma característica universal dos mitos pode ser expressa com o termo humor, apesar da am-bigüidade do termo. Não se trata de brincadeiras e de ocasiões para grandes risadas. É algo semelhan-te àquilo que os romanticistas alemães entendiam como um sorriso que liberta das ansiedades da exis-tência e, portanto, da depressão. Os mitos, quando são verdadeiramente eficazes, tem sucesso onde a linguagem comum fracassa, abrindo-se uma fenda na barreira da nossa compreensão ordinária: por isso, o termo libertação é na verdade, mais apropriado para indicar o seu resultado.

Podemos também considerar o mito como uma forma de sistema doutrinal arcaico, de alguma forma ligado à história da evolução do pensamento. Como o testemunho, isto é, que os “primitivos” e os “antigos” não estavam em condições de pensar como se deveria (e como presumivelmente pensam os homens modernos). Ou ainda, podemos também inserir à força o mito em um esquema lógico que satisfaça a nossa sensação moderna que a razão e a realidade empírica sejam universais e eternas. Em todo o caso, distorções deste gênero não levam em consideração a realidade e a representação imedia-ta fornecida pelos próprios mitos.

Um mito dos Ge (Brasil) se abre afirmando que nos tempos antigos os indígenas não possuí-am nem trigo nem fogo. O mito passa depois imediatamente (o profano diria ‘laconicamente’ ou ‘iro-nicamente’?) a narrar como um membro da tribo leva a mulher na floresta, em um lugar isolado, onde fundam uma colônia e plantam trigo e outras frutas comestíveis. O homem se transforma em uma serpente devoradora de homens; o amante da mulher se encontra secretamente com a mulher, e final-mente, vai embora na companhia de um outro homem: este último termina devorado pelo homem-serpente. A estas alturas, os habitantes da vila matam a serpente e introduzem em sua terra o trigo, os outros produtos cultivados e o fogo. No curso da história, a mulher por duas vezes dá à luz serpentes, primeiro na floresta depois na vila. Os habitantes da vila matam todas as serpentes que encontram entre as cabanas: então uma mulher se retira na floresta e para vingança manda às serpentes, seus fi-lhos, a morder os homens.

Qualquer coisa que se deva ou se possa dizer sobre aitia da inimizade colocada entre os ho-mens e as serpentes, sobre sistemas lógicos escondidos na profundidade ou na relação que acontece entre a aquisição da vida civilizada e a violência, este mito se assemelha a muitos outros porque con-tém eventos extraordinariamente singulares e contraditórios. O humor, sozinho, não pode evidente-mente constituir a decisiva e absoluta categoria de interpretação. Nenhuma etiologia é descartada, nenhuma lógica é julgada inútil; muita atenção é dada aos modelos e aos condicionamentos culturais. Nos mitos se expressa sempre alguma coisa de “liberatório”, alguma coisa que impressiona os ouvin-tes e os arranca de suas atitudes mentais.

Outro exemplo deste fenômeno está na celebérrima narração de Gênesis 1. Deus cria a luz no primeiro dia da criação, ao passo que o sol, a lua e os outros corpos celestes vem a existir somente no quarto dia. No final do capítulo, o sexto dia, Deus designa todas as plantas verdes como alimento para os animais selvagens, para os pássaros do céu, para os répteis e para todas as criaturas viventes. Natu-ralmente esta última afirmação contrasta com aquilo que os ouvintes sabem a respeito dos hábitos alimentares dos animais carnívoros como o leão, por exemplo. Deve-se, portanto, deduzir que a nar-ração não é verdadeiramente uma narração da criação, mas uma narração relativa ao Paraíso. Con-vencidos deste raciocínio ou tocados pela constatação que, segundo esta narração, o deus criador é algo diverso que um motor imóvel, mas somos mais marcados do que persuadidos desta idéia.

O escritor alemão Jean Paul (pseudônimo de Johann Paul Friedrich Richter, 1763-1825), co-nhecido por seus ensaios literários, era plenamente consciente do fato que o cômico não trata argu-mentos fúteis, mas, de argumentos de importância capital. As formas de comicidade por ele definidas não necessitam especiais modificações para poder ser aplicadas também à literatura mitológica. To-das estas formas estão caracterizadas por um desafio dirigido às atitudes “inveterados” da mente hu-mana.

1) Em muitos mitos se manifesta a “confusão dos opostos”. Abundam imagens como a do tempo precedente à criação, quando o céu e a terra ainda não estavam separados, ou de um tempo inicial no qual estavam tão próximos que os homens não podiam estar em posição ereta. Também o ato criativo do Gênesis 1 prevê uma separação das águas inferiores das águas superiores.

2) Muitas vezes os mitos representam uma “inversão dos efeitos”. Um evento desastroso con-duz de alguma maneira a uma grande felicidade, totalmente inesperada para os ouvintes. Um mito deste tipo é a narração cosmogônica induísta do ferver do oceano. Antes do tempo atual, narra-se, antes da criação do mundo, os deuses e is demônios viviam em aparente harmonia. Num dado mo-mento, os deuses quiseram obter a imortalidade e por isso, junto aos demônios, dão início à sua pes-quisa agitando o oceano. Mas por surpresa, contra toda expectativa, em vez da imortalidade emerge um veneno mortal. Todas as variantes do mito narram como o grande deus Siva salva o mundo (que, estranhamente, ainda não apareceu), engolindo pessoalmente o terrível veneno. A versão contida no Ramayana apresenta um particular interessante: é o deus Visnu que sugere a Siva beber o veneno, com o pretexto que a primeira oferta é dele. Variam, portanto, as narrações e suas interpretações, mas sempre Siva termina por beber o veneno, dando origem à fundação do mundo. A “seriedade” deste implícito “começo” aparece evidente; o mesmo acontece também no caso da crucifixão de Jesus Cris-to, que é seguida – sem que nenhum dos atores e dos testemunhos humanos o possa antecipar – pelo triunfo da ressurreição.

3) “Condicionamento subjetivo” é talvez a melhor fórmula para definir a consciência, própria do mito e de seu narrador, da organicidade singular que liga a voz humana que narra, com a realidade sagrada e sobrehumana que é narrada. Tal consciência se pode exprimir nos modos mais diversos, às vezes bem elaborada, outras de forma banal e suposta. Os sudra budistas, que expõem os maravilho-sos ensinamentos e os milagres de Buda e que tornam acessível à libertação, o nirvana, iniciam todos com a expressão: “Assim eu ouvi”. Muitíssimos mitos são disseminados de frases como “Diz-se que...” ou “dizem que...” A tradição budista prevê que cada fiel recite regularmente o inteiro elenco dos nomes. Cada qual medita de forma consciente sobre sua relação com o divino, com o Senhor ab-soluto.

4). O termo grotesco se empregaria com alguma reticência em relação a tradições sacras: mas constitui a forma mais freqüente de começo nas tradições diferentes da nossa. Às vezes se narra mun-dos criados antes do atual, mundos que, contudo, se revelam completos insucessos, como na tradição dos Saora, na Índia. Segundo este mito, houve uma vez um mundo constituído por uma substância resinosa; deste mundo alguns homens fizeram uma destilaria e produziram licor. Esta bebida não era somente excelente, mas demasiado excelente: quando iniciou a correr, pegou imediatamente fogo e assim queimou o mundo inteiro, afundando-o no oceano primordial. Não é difícil reconhecer neste caso vários elementos grotescos. Às vezes o ‘grotesco’ emerge de uma exagerada atenção voltada ao particular ou ao secundário. É como se o caráter grotesco contribuísse para enfatizar a total alteridade daquele tempo dos inícios do mundo, daquele tempo, do qual depende a libertação, a salvação ou a felicidade.

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MITO E HISTÓRIA

À primeira vista, mito e história são duas coisas radicalmente diversas. Ambos são narrações, é verdade, que dispõem os eventos em narrações unitárias, que podem ser expostos mediante palavras. Mas o mito é uma narração das origens, que se acontece num tempo primordial, um tempo diverso do que aquele da realidade quotidiana; a história, ao contrário, é uma narração de eventos recentes, que pode ser estendida progressivamente para trás até incluir eventos de um passado mais remoto, mas que permanecem, contudo, eventos situados em um tempo totalmente humano.

Esta definição de abordagem requer obviamente algumas observações e precisões, que revelam uma rede de relações bem mais complexa do que esta rígida contraposição. Consideremos em primeiro lugar o fato que o nosso modelo de mito deriva das histórias dos deuses da antiga Grécia. Uma certa transição do mito à história já se pode notar nos mitos gregos, que incluem também as histórias dos heróis e as histórias dos antepassados. Estas histórias são definidas mais propriamente como narrações lendárias: desenrolam-se num tempo intermédio, que se coloca entre o tempo das origens e o dos eventos recentes. A história também vai acabar ocupando também este tempo lendário, estendendo-o até compreender o passado mais remoto.

Um ponto de contato ainda mais significativo entre mito e história foi esclarecido através da extensão, agora familiar através da antropologia contemporânea, da noção de mito, até incluir alguns tipos de narrações extremamente difundidos nas sociedades arcaicas contemporâneas. Tais narrações são caracterizadas pelo fato de serem anônimas e por isso privas de uma origem precisa. Elas são acolhidas pela tradição e aceitas como credíveis por todos os membros do grupo, tendo como única garantia de autenticidade a autoridade daqueles que os transmitem. A história produzirá uma “fratura epistemológica” neste gênero de transmissão, mas somente depois de uma evolução que prevê numerosos estágios intermediários.

A origem de um conflito ainda mais sério entre mito e história e, portanto, a ocasião para produzir formas mais complexas de transição e de compromisso, reside no próprio objeto do mito, que provisoriamente definimos como narração das origens. O tema das origens se estende muito mais para trás em relação às histórias dos deuses, dos heróis e dos antepassados. Por outro lado, as questões relativas às origens se referem a todos os componentes da existência, individual e social. Os mitos podem responder a uma ampla série de perguntas diferentes, das quais enumeraremos alguns exemplos. Como se constituiu esta sociedade? Qual é o sentido desta instituição? Por que existe este evento e aquele rito? Por que certas coisas são proibidas? Qual coisa legitima determinada autoridade? Por que a condição humana é assim miserável; por que os homens sofrem e morrem? A todas estas perguntas o mito responde narrando como estas coisas tiveram origem. Narra a criação do mundo e o aparecimento dos homens, na sua atual condição física, moral e social. Com o mito nos encontramos, portanto, diante de um tipo muito típico de explicação, que conservará uma complexa relação com a história. Este tipo especial de explicação consiste essencialmente na função fundante do mito: o mito narra eventos fundantes. A sua ligação e o seu sucessivo conflito com a história são o resultado desta função particular. De um lado, o mito existe somente se o evento fundante não teve lugar na história, mas se coloca num tempo anterior a toda história: in illo tempore. Por outro lado, o que importa em cada fundação deste tipo é colocar em relação o nosso tempo com o tempo do mito, através de formas de participação, de imitação, de decadência ou de abandono. É, portanto, este tipo de relação entre o nosso tempo e o tempo do mito aquilo que constitui o elemento essencial do mito; não as coisa fundadas por ele, ou seja, o complexo da realidade (o mundo inteiro) seja de um fragmento da realidade (um valor ético, uma instituição política, ou a existência do homem enquanto tal numa condição particular, de queda ou de inocência).

À luz desta sintética fenomenologia do mito, parece que a relação entre o mito e a história se possa situar sob três níveis diferentes. Num primeiro sentido, mais restrito e limitado, mito e história constituem dois tipos diferentes de narração. O mito é uma narração relativa à origem de tudo o que pode preocupar-nos, atemorizar-nos ou surpreender-nos. A história, por sua vez, constitui um preciso gênero literário, representado pelos escritos históricos ou historiográficos. Considerada neste sentido limitado, a história pode, então, entrar em relação múltipla com o mito; e a derivação da história do mito não é certamente a única destas relações. Ms o ponto de vista genético não deve ofuscar outros pontos de vista. A história nem sempre toma necessariamente o lugar do mito, mas pode subsistir a seu lado no âmbito da mesma cultura, junto a outros tipos de narração: então a questão do relacionamento entre mito e historiografia deve ser feita direcionando à classificação dos diferentes tipos de narração produzidos por uma determinada sociedade num dado momento histórico. Deve-se ao mesmo tempo adquirir seja perspectiva genética e a taxonômica, para que completem e limitem as conclusões unilaterais mutuamente.

Sob o pano de fundo deste problema, certamente limitado, aprece imediatamente outro, mais amplo, que está ligado a um segundo significado do termo história. A história, na verdade, não é somente produto literário; é também o que o homem faz e sofre(padece). Muitas línguas mantêm separados estes dois significados do termo: “história” como narração dos eventos do passado e “história” como o conjunto destes mesmos eventos, assim como os homens os determinaram ou foram envolvidos. Além da questão dos escritos de história, se apresenta a questão de como uma determinada cultura interpreta as modalidades históricas da própria existência. Mas quanto a isso emergem muitos problemas. Como são percebidos, por exemplo, a estabilidade ou a mudança relativas aos costumes e às instituições sociais? Que valor lhes é atribuído? A mudança tem algum significado em si mesma? A mudança é significativa e orientada para um objetivo, ou é incoerente, fruto somente da desordem, da sorte e da causalidade? E se também tem um sentido, a mudança constitui uma melhora, uma forma de progresso, ou representa uma degeneração, uma decadência?

Passar do primeiro significado de história ao segundo não é difícil. Escrever a história como atividade essencialmente literária é um dos tantos modos, para a sociedade, de dar razão e valorizar o próprio passado. Mas assim se introduz inevitavelmente a questão mais geral do significado que aquela sociedade atribui ao próprio desenvolvimento histórico. Esta interrelação entre a história como atividade literária e história como experiência vivida fornece um significado novo à questão do relacionamento entre história e mito. O mito, na medida em que vem definido na base de seu papel fundante, pode servir para atribuir um valor positivo ou negativo à história em geral, na medida em que esta última é concebida como modalidade da existência humana.

Tratando do mito e da história neste nível, devemos evitar a tentação de empenhar-nos em contraposições simplistas entre tipos diferentes de civilizações, ou utilizar interpretações genéticas excessivamente lineares. Uma única sociedade pode ter tanto mitos de decadência como mitos de progresso, em épocas diferentes ou também contemporaneamente. Este sobrepôr-se de mitos contrastantes exprime talvez a incerteza que uma sociedade experimenta em relação às mudanças das quais é objeto. Às vezes, numa determinada cultura a historiografia visa fornecer explicações somente parciais, que não visam à totalidade, ao passo que a mais ampla questão do significado da história é confiada às lendas e aos mitos. Por isso, duas culturas podem diferir quanto se refere a seus mitos fundamentais, mesmo apresentando surpreendentes analogias nas técnicas e nos objetivos da sua historiogravia. Isto se verificou no caso dos deuses Gregos e dos Hebreus, como se verá abaixo.

Finalmente, a propósito do significado da história, encontramos a questão da interpretação que uma sociedade fornece do tempo no qual a própria história – a história inteira – se desenvolve. Esta terceira questão está, de fato, implícita nas duas anteriores. A historiografia, em primeiro lugar, pode ser definida como a narração das ações humanas do passado. Mas, no momento em que este interesse pelo passado é inseparável do interesse pelo presente e pelas expectativas relativas ao futuro, a historiografia inclui necessariamente, na sua definição, uma referência ao tempo. Trata-se do conhecimento das sociedades e dos povos no tempo.

Esta referência ao tempo envolve inevitavelmente ambos os significados de história: uma percepção específica do tempo está implícita, seja no significado que uma classe de literatos atribui ao ato de escrever a história, seja no significado que uma determinada sociedade atribui à sua história através da atividade narrativa. A valorização do tempo pode tornar-se objeto de reflexão ou permanecer implícita, mais ou menos assim como a mudança pode ser valorizada positivamente ou negativamente. A este nível se contrapõem duas diferentes concepções do tempo, a cíclica e a linear.

A questão da presumida contraposição entre concepção cíclica e concepção linear do tempo é uma questão espinhosa. Não é certo, em primeiro lugar, que a noção de tempo cíclico tenha um único significado. Além do caso paradigmático da regeneração periódica do tempo, através de ritos específicos, há muitos outros modos de conceber o periódico retorno das mesmas situações e dos mesmos eventos: por isso, é necessário distinguir diferentes tipos de periodicidade. Nem é certo que a noção de tempo linear fosse claramente percebida como uma alternativa radical à concepção do tempo cíclico, antes da astronomia e da cosmologia modernas ou das ainda mais recentes ideologias do progresso. Finalmente, mas não menos importante: cada cultura pode também produzir mitos completamente contrapostos em relação ao caráter, cíclico ou linear, do tempo. Isso deriva da incerteza que cada sociedade pode nutrir sobre a própria condição histórica e sobre a da raça humana em seu todo. Uma cultura produz mitos de tempo cíclico, ou vice-versa, de tempo linear, pode também gerar uma historiografia deliberadamente conforme a esta estrutura, que limita o seu fim a segmentos temporais reduzidos, facilmente inseríveis em cada uma das duas visões contrapostas do tempo. Por estas razões, o problema da aparente contradição entre tempo cíclico e tempo linear não deve ser encarado de frente. O debate deveria ser levado no horizonte das duas problemáticas precedentemente assinaladas.

Grécia antiga
Para orientar-nos neste problema será útil tomar como ponto de referência as relações entre mito e história na Grécia antiga. No âmbito cultural do Oriente Próximo antigo e do Mediterrâneo, somente os Gregos (junto com o antigo Israel) produziram uma historiografia digna de tal nome. A variedade das relações que esta produção mantém com o mito (um termo por excelência grego) permite-nos verificar a extrema complexidade do problema e a validade do modelo tripartido que acabamos de citar.

Se aderirmos à definição de história como historiografia, então a relação entre a história e o mito é determinado, em seus traços essenciais, pelo nascimento de um tipo de conhecimento e de um tipo de discurso (a prosa narrativa) que provoca uma série de fraturas claras com o modo de pensar mítico e com a sua forma privilegiada de expressão literária, a poesia em versos. O testemunho mais antigo que temos acesso desta fratura entre história e mito remonta a Heródoto (metade do século V a.C.) cuja obra constitui uma pedra angular da história da literatura. O seu título (Historie no dialeto iônico) determinou não somente o nome da disciplina à qual deu origem, mas também o significado principal do termo, isto é “pesquisa”, “indagação”. As “histórias” de Heródoto são na verdade, pesquisas sobre as causas das guerras ente os Gregos e os Persas. Diferentemente dos mitos de origem e das narrações heróicas situados em tempos remotos, referem-se, portanto, a eventos recentes. Heródoto estava interessado no papel das causas anteriores e responsáveis pelos eventos sobre os quais andava indagando. Os seus escritos, portanto, bem mais do que simples descrições, são expressões de uma típica maneira de pensar (que foi definida o iluminismo iônico) e reentram num vasto conjunto de pesquisas cosmológicas, geográficas e etnográficas. Encontram o seu equivalente especulativo na filosofia, e na physis (que traduzimos por “natureza”), define ao mesmo tempo o seu campo de exploração e a sua palavra chave. Na filosofia iônica a noção de arché, no sentido de “princípio” aparece claramente diferenciada da arché, no sentido de “início”. Esta bifurcação da noção de origem se revela de grande importância para a compreensão da separação da história do mito.

A fratura epistemológica com o mito, que assinala o nascimento da história, da geografia, da etnologia, da cosmologia e da filosofia da natureza, não nos autoriza, contudo, a representar o processo simplesmente como genético e linear. Isso equivaleria a transcurar os estágios intermediários que assinalam a passagem do mito à história, como também a constante dependência do novo modo de pensar daquele mítico precedente. Transcuraríamos também, neste caso, a simultânea co-presença de diversos tipos de narração no âmbito de uma mesma cultura.

Evitando toda representação simplista do “milagre grego”, precisamos considerar atentamente este fenômeno de transição, que conserva vários traços dos diversos fatores que contribuíram para prepara o “evento” do iluminismo iônico. Heródoto foi, de fato, precedido por uma longa série de prosadores, que lhe abriram o caminho. O mais importante, certamente, foi Ecateo de Mileto que conhecemos somente através de poucas citações que restaram. Já na segunda metade do século VI, este prosador escrevia uma Periegesis, uma realística prestação de contas de uma viagem ao rtedor do mundo, que une a história à geografia, à cartografia e à etnologia; também escrevia as Genealogias, que reconstruíam as grandes “famílias” da idade heróica. A fratura entre mito e história não aconteceu, portanto, de uma só vez, mas gradualmente. Também as Histórias de Heródoto não despedaçavam todos os laços com a história da idade heróica, como se pode constatar nas tentativas de elaborar uma cronologia a partir da guerra de Tróia.

Esta dupla relação, de ruptura e de filiação, que subsiste entre mito e história ao nível de forma narrativa, se torna ainda mais clara quando tomamos em consideração o objetivo atribuído a esse novo tipo de literatura. Deslocamo-nos agora do primeiro ao segundo significado de história. O objetivo que Heródoto colocava para a sua pesquisa é claramente expresso no Prólogo das Histórias: “Aqui estão expostas as pesquisas (historias) de Heródoto de Alicarnasso, que as ações dos homens não podem ser esquecidas, nem as coisas grandes e maravilhosas realizadas, seja pelos Gregos como pelos bárbaros ficam sem fama, nem sobretudo, as causas (aitié) das guerras que combateram uns contra os outros”.

Destas observações preliminares são sublinhados especialmente três pontos. Pela primeira vez é nominada uma forma de ”luta” contra o esquecimento; a concepção do tempo que neste caso está implícita será discutida mais adiante. O exercício da memória se aplica, depois, aos grandes empreendimentos dos Gregos e dos bárbaros. A noção de grandes gestos evoca imediatamente uma ligação com a época da idade heróica, mesmo se neste caso a noção se aplica aos tempos recentes. Mas, sobretudo, este culto da memória liga a história à autocompreensão que um povo adquire no momento em que fornece uma prestação de contas do próprio passado. A lembrança alimentada pela história é, portanto, a lembrança de um povo considerado como um corpo unitário. Desta forma, a história se coloca no interior do conjunto das tradições que constituem o que poderia ser definido ‘a identidade narrativa de uma cultura’. Mas, a história desenvolve esta função de modo crítico, totalmente diferente daquele das tradições míticas, que encontram a sua autoridade do próprio ato da transmissão. A contraposição entre o método crítico da historiografia, introduzido por Heródoto, e o método autoritativo da transmissão dos mitos (como em Homero) se coloca, portanto, no interior do fenômeno da tradição: o poeta e o literato estão ambos, imersos na fusão da cultura.

O terceiro ponto do programa de Heródoto olha na mesma direção: o objeto da pesquisa é descobrir as causas de um evento conflitual, isto é, das guerras persianas. Estas guerras não foram somente uma contraposição entre Gregos e bárbaros, mas ameaçavam profundamente uma inteira configuração dos povos, exatamente como tinha feito a guerra de Tróia na idade heróica. Desta crise a história agora busca as causas. Atribuindo estas causas a algum agente responsável, as histórias assinalam uma coloração ética em todo decurso dos eventos, o que testemunha uma surpreendente afinidade entre história e tragédia. Foi a hybris de Creso a comprometer a harmonia de um povo, e a vitória dos Gregos aparece como uma punição (tisis) que restabelece esta harmonia perdida. O curso dos eventos realiza, desta forma, uma forma de justiça divina. Neste momento é oportuno citar um fragmento de Anassimandro: “porque (as coisas existentes) pagam reciprocamente o fio e a culpa da sua injustiça, segundo a ordem do Tempo”. Este fragmento exprime um modo de pensar que se coloca a meio caminho entre o mito e o que os Sofistas, Sócrates e Platão chamarão Sophia (“sabedoria”).

Desta análise podemos constatar que a passagem do mito à história não pode ser reduzido à simples substituição do primeiro com a segunda. Em alternativa a uma interpretação linear deste gênero devemos pensar, antes, numa acumulação de gêneros literários e de modos de pensar ligados a eles: mitos teogônicos escritos no estilo da mitologia erudita e literária, mitos heróicos inseridos na forma literária da época e da tragédia e, finalmente, a história. Esta última, portanto, não substitui totalmente o mito, tanto assim que Platão, mesmo declarando em seus diálogos guerra aos mitos, contudo não renuncia a inserir cá e acolá algum palaios logos derivado da tradição órfica ou da sabedoria egípcia. O próprio Platão inventa mitos e os apresenta sob a forma de narrações filosóficas.

Permanece agora um terceiro problema, o da representação do tempo que subjaz à história, um problema estritamente conexo com a disputa entre história e mito. A historiografia grega, que também sob este ponto conserva uma grande importância, não contrapõe tanto o tempo cíclico ao linear, quanto distingue entre um tempo dos deuses e um tempo dos homens.

A propósito da disputa sobre a presumida contraposição, operada pelos Gregos, entre tempo cíclico e tempo linear, aparece logo evidente que a historiografia não fornece uma confirmação da tese segundo a qual a grecidade é maciçamente a favor de uma concepção cíclica do tempo: na verdade ela evita tomar uma posição a respeito. Como sublinha Arnaldo Momigliano, Heródoto, no momento em que concentra a sua atenção sobre um fragmento limitado da história, não está consciente da existência de um ciclo histórico e menos ainda de um eterno retorno. Naturalmente ele crê que haja forças operantes na história, forças ligadas em geral à intervenção dos deuses na existência humana e que se manifestam somente no final de uma longa cadeia de eventos. Deste gênero era a hybris da qual Solão alertava. Nada, contudo, indica que estas intervenções divinas atestem um tempo cíclico.Heródoto “atribuía às guerras persianas um significado unitário, e não cíclico, essencialmente de conflito entre homens livres e escravos”.

É ao problema da fratura entre tempo dos deuses e tempo dos homens é outro, que a historiografia grega traz uma contribuição mais decisiva. Revela-se fundamentalmente, neste sentido, o confronto com Homero, com Hesíodo e com os trágicos. Em Homero a frágil consistência assumida pelo tempo humano deve-se à ligação de consangüinidade que ainda une a maior parte dos heróis aos deuses. Para poder re-evocar estes tempos heróicos, a memória comum não é suficiente. Não é por simples convenção literária que no II livro da Ilíada o poeta pede às Musas, filhas da Memória (Mnemosyne), de guiá-lo através da confusão do tempo e do espaço dos homens: “e agora, dizei-me, ó Musas que habitais o Olimpo, que sois verdadeiras deusas, presentes por toda parte, que conheceis cada coisa: nós ouvimos somente rumores e não conhecemos nada; dizei-me: quem eram os guias, os chefes dos Danai?”. O tempo aparece ao observador humano uma confusão absoluta: por isso o poeta convida as Musas a associar-se a ele, com a suprema visão divina. No mito hesidíaco, ao contrário, as idades do mundo e das raças que vivem nele, estão inseridas a meio caminho entre o tempo dos deuses e o tempo dos homens e servem juntos para separa-los e reuni-los. Trata-se de uma história de decadência, interrompida parcialmente pela quarta raça, a dos heróis. O destino final da última rapa, a raça da idade de ferro, é o de suportar as fadigas e as adversidades e, portanto, viver dolorosamente no tempo. O único remédio possível é a monótona repetição do trabalho dos campos. O ciclo do tempo, neste caso, é já o de um tempo humano.

Nas obras dos trágicos, finalmente, o homem é definido como uma realidade “efêmera”; não tanto porque a sua vida é breve, mas porque a sua condição está sujeita aos acidentes do tempo. O “tempo soberano”, cantado pelo coro, pode ser também o “tempo vingador” que restabelecerá a justiça. A historiografia, ao contrário, em virtude da tarefa que se assume, atribui uma certa consistência ao tempo do homem, no momento em que o coloca em relação com o tempo humano do “primeiro inventor” (protos euretès). Heródoto identifica, de um lado, estes primeiros inventores com aqueles que pela primeira vez levaram ofensas aos gregos e portaram às guerras persianas. Por outro lado, o histórico se apresenta por sua vez como primeiro inventor, colocando-se em primeiro plano, expondo os motivos para recordar o passado e procurando o significado dos eventos transcorridos. Nesta dúplice forma, ele atribui consistência ao tempo humano. Não obstante a sua estrutura linear, contudo, este tempo humano deixa ainda espaço a analogias e correspondências que enaltecem alguns personagens acima e além do próprio tempo.
Somente com Tucidides um tempo lógico começará a governar a desordem do tempo histórico, caracterizado pelo repetir-se das freqüentes discórdias entre as cidades, pelas quais males inumeráveis e terríveis “se sucedem sem fim”. O segundo grande histórico grego pode, por isso, definir a sua obra como um meio para “perscrutar e penetrar a verdade das peripécias passadas e das quais no tempo futuro, pelas leis imanentes ao mundo humano, sucederão semelhantes, ou até idênticas”. É este o sentido da famosa expressão ktéma eis aei (“possuído para sempre”): o tempo humano assumirá consistência diante do tempo dos deuses somente quando estiver ancorada a alguma lógica da ação.

Antigo Israel
Seguindo a maioria dos exegetas e dos históricos da cultura, também nós adotamos a hipótese de trabalho que somente os Gregos e os Hebreus desenvolveram uma historiografia comparável à moderna. Por isso, para discutir a origem da história no antigo Israel faremos referência ao fenômeno análogo que se manifestou na Grécia. Esta operação comparativa, contudo, não é isenta de dificuldades.

A primeira fonte de dificuldades reside na diversidade dos gêneros literários. De fato, a épica, a tragédia, a poesia lítica e a história são representadas na Grécia por obras específicas e por autores específicos, ao passo que se encontram agrupadas juntas e entrelaçadas entre si na Bíblia hebraica, um livro que por si só já é constituído por uma coleta de livros. Se quiséssemos, por isso, ver nas Escrituras hebraicas uma coletânea de textos comparável às histórias de Heródoto, deveríamos ignorar a importante questão do contexto, com o risco de graves distorções. Este é o caso, por exemplo, da narração da subida ao trono de Davi (1 Sam 16, 14 ss; Sam 5,25) e da sua sucessão (2 Sam 7,9-20; 1 Re 1-2).

Uma segunda dificuldade deriva da complexidade do gênero narrativo: este, de fato, representa uma tal variedade de formas, que não podemos reduzir a nossa classificação a uma simples contraposição entre história e mito. Torna-se necessário elaborar uma tipologia das formas narrativas, por quanto rudimentar e provisória que seja, que nos consinta indagar sobre possíveis derivações entre uma e outra forma.

Contudo, além da variedade dos gêneros literários que envolvem o núcleo narrativo e além da diversidade das próprias formas, as Escrituras hebraicas apresentam uma ulterior dificuldade: uma hierarquia de textos diferentes. Unidade primeiro nível, que comprendem a inteira gama das formas narrativas são, na verdade, incorporadas em conjuntos narrativos mais amplos, que apresentam características diversas daquelas da unidade do primeiro nível. Para tornar estas diferenças de nível e de estrutura entre narrações mais amplas e os seus segmentos mais reduzidos, propriamente historiográficos, é oportuno fazer referência às primeiras como a “narrações de tipo histórico”.

Finalmente, sempre a propósito do problema específico da relação entre mito e história, em Israel (diversamente do que acontece na Grécia) encontramo-nos diante da situação paradoxal pela qual os mitos ou os fragmentos de mitos importantes das culturas vizinhas foram incorporadas nos grandes conjuntos narrativos acima citados sob forma de mitos historizados, como no caso de Gênesis 1-11. Esta reinterpretação do mito na base da história é específica do mundo literário do antigo Israel.

Para guiar a nossa pesquisa entre os escolhos destas dificuldades é oportuno proceder ao longo de uma via assinalada por três níveis de pesquisa indicados no primeiro parágrafo: uma tipologia das formas narrativas; uma análise do método interpretativo específico da comunidade que produz tais narrações; finalmente, um rápido olhar à concepção do tempo implícita nas formas literárias e na auto-compreensão próprias do antigo Israel.

Quanto ao que se refere à tipologia das formas narrativas, em cuja história e mito copam os dois pólos opostos do espectro, é importante observar que as pesquisas genéticas, derivadas principalmente da obra de Hermann Gunkel e de Hugo Gressmann, utilizaram as análises estruturais para definir os critérios de identificaçã odas várias formas narrativas e, depois, se orientaram à individuação das suas filiações. Gunkel (1928) pensava que as narrações historiográficas (como as duas sobre Davi, acima citadas) derivem mais de lendas (Sagen) do que de mitos do Próximo Oriente antigo ou dos elencos analíticos e cronísticos difundidos entre os povos confinantes. Para sustentar esta tese, Gunkel elaborou uma tipologia que lhe consentisse distinguir as lendas de outros tipos de narrações. Distingue, em primeiro lugar, as lendas (Sagen), que se referem a personagens do mundo real mas vividos num tempo muito remoto, dos mitos, que são narrações das origens, ambientadas num tempo diferente daquele ordinário; o das fábulas (Märchen), que são puras ficções finalizadas ao entretenimento. No interior das Sagen ele, depois, distinguia as lendas familiares (Vatersagen) e as lendas heróicas (Heldensagen). As lendas familiares estão ligadas aos chefes-família, que representam o seu grupo social; às vezes são ligadas em série, como as histórias de José, que Gunkel chama “novelas” (Novellen). As lendas heróicas, quando se referem a figuras publicas como Moisés, Josué, Saul e Davi, podem conter alguns elementos autenticamente históricos. Segundo Gunkel, somente no interior deste sub-grupo podemos captar a evolução que leva da pura lenda heróica, exemplificada por Gedeão, à autêntica história, entendida no sentido análogo ao de Heródoto, como nas duas narrações sobre Davi às quais fizemos referência. Gressmann (1910) desenvolveu ulteriormente este tipo de abordagem, chamando a atenção sobre lendas proféticas, cujo fim é essencialmente devocional e edificante.

A contribuição mais importante de Gressmann, contudo, foi a sua subdivisão tripartida da história. Primeiro vem a história relativa aos eventos recentes (supõe-se que as narrações relativas a Davi tenham sido escritas pouco depois dos acontecimentos narrados); depois vêm as lendas, que se referem a eventos remotos; finalmente, os mitos, que se referem aos tempos primordiais. A unidade desta tripartição reside no fato que essa transcura a questão do grau de veridicidade das narrações, uma questão que se funda na noção moderna de prova documental. Seja em Gunkel como em Gressmann, contudo, o interesse tipológico é imediatamente absorvido pelo interesse genético: o seu objetivo principal é o de determinar de qual forma a historiografia se desenvolveu da lenda como gênero erudito.

O mesmo problema é enfrentado por Gehard von Rad (1965), mas na base de interesses diferentes. Também ele se interroga sobre as condições necessárias para o nascimento da historiografia, mas onde Gunkel sublinhava o papel decisivo do novo estado monárquico, von Rad coloca em evidência a exigência de explicação típica da função etiológica das lendas, a formação de uma literatura em prosa e, sobretudo, o papel organizador de uma visão teológica da história. Pela influência deste terceiro e decisivo fator, a organização narrativa prevalece sobre a apresentação paratática, que é típica das lendas heróicas. Em todo caso, a relação de filiação que liga a lenda ao mito resulta ainda muito frágil. Seria uma espécie de iluminismo semelhante ao iônico, o que permite a passagem da novela, em si já relativamente complexa, a conjuntos narrativos mais amplos, como as histórias de Davi ou o documento javista, que são assim colocados no mesmo nível do núcleo historiográfico, ao menos no que se refere à sua organização.
Armada de semelhantes critérios tipológicos de distinção entre os vários gêneros literários, a exegese bíblica se moveu para examinar a questão da sua filiação, uma questão considerada fundamental. Neste contexto a hipótese de Gunkel foi verificada por seus sucessores (Gerhard von Rad, Martin Noth, William F. Albright, Umberto Cassuto, Claus Westermann e John van Seters). No interior da hipótese é possível propor diversos graus e diversos tipos de acentuação. Pode-se, por exemplo, sublinhar a importância do fator político; ou do espírito iluminado de uma época próxima aos eventos narrados; ou do grau de organização das próprias lendas, antes ainda da sua fase literária. Pode-se acentuar a importância de uma hipotética épica israelítica primitiva, influenciada pela épica mesopotâmica e cananéia; ou da instituição dos arquivos da corte, dos anais e de outros documentos comparáveis aos originários dos povos vizinhos; ou, finalmente, especialmente, do impulso organizativo exercido pelas concepções teológicas. Na realidade, todas estas hipóteses genéticas contrapostas de demonstraram nos fatos inverificáveis, na ausência de fontes diferentes dos textos canônicos das Escrituras hebraicas. Nem é certo que os textos aparentemente mais próximos à historiografia grega tenham sido efetivamente escritos num período próximo ao dos eventos narrados, nem que tenha existido uma literatura de Israel anterior à composição do Deutoronômio.

As respostas dos estudiosos a estas dúvidas assumiram formas diversas. Algumas tentaram renovar as pesquisas relativas à gênese dos textos na base de novas hipóteses. Outros privilegiaram uma análise estrutural mais acurada das formas narrativas; outros ainda empreenderam um estudo claramente literário da arte narrativa que se manifesta em todas as formas de narração.

A primeira orientação é representada sobretudo pelas obras de John van Seters e de Hans H. Schmidt, que deslocaram os primeiros escritos de Israel cinco ou seis séculos mais tarde em relação aos estudos precedentes e descartaram, portanto, todas as precedentes hipóteses relativas a derivações e filiações.

A segunda orientação pode ser ilustrada pelo interesse taxonômico que domina todas as pesquisas de George W. Coats sobre o Gênesis. Coats subdivide os gêneros narrativos principais em saga, narração, novela, lenda, história, prestação de contas, fábula, narração etiológica e mito. Com o termo saga (não confundir com o alemão Sage, “lenda”), alude-se aqui às sagas irlandesas e nórdicas, que são longas narrações tradicionais em prosa, articuladas em sagas familiares e sagas heróicas. A narração prevê poucos personagens, um único cenário e uma trama simples. A novela, ao contrario, é uma narração mais complexa, na qual o enredo é caracterizado por uma situação de tensão que no fim se resolve. As lendas são narrações estáticas, quase privas de trama, que celebram as empresas de um herói. A história pretende referir eventos realmente acontecidos; a prestação de contas descreve um acontecimento isolado. As fábulas representam um mundo fictício, ao passo que as narrações etiológicas querem explicar uma situação ou atribuir um nome a um lugar ou a um personagem. Os mitos, finalmente, ocupam todo o espaço restante, isto é, o terreno fantástico das atividades dos deuses o mundo divino (incluindo, portanto, Gênesis 6,1-4).

Um exemplo importante da terceira orientação é fornecido por Robert Alter e Adele Berlin. Estes autores, livres de preocupações tipológicas, estudaram a arte da composição narrativa, baseando os seus estudos no modelo do romance moderno. Desta forma narrações que num tempo eram definidos primitivos e rústicos se revelam obras de grande e perfeita fineza, para o sábio uso do diálogo e para a apresentação camuflada dos eventos. Ao mesmo tempo, a análise literária reforça o valor teológico destes textos, uma vez que sublinha como o conflito entre a inevitabilidade do projeto divino e a resistência dos homens é por si prenúncio de desenvolvimentos narrativos.

A difusão das análises de tipo estrutural levou a descuidar o problema das relações entre mito e história, com desvantagem das pesquisas tipológicas mais detalhadas. O problema reaparece, contudo, num nível diferente, no momento que o tema da autocompreensão de uma cultura se exprime de fato através da sua tradição. Esta nova linha de pesquisa é imposta pela própria tipologia, se é verdade que o objetivo de cada forma narrativa é o de contribuir à autocompreensão. A estas alturas, encontramo-nos diante, nos textos bíblicos, no segundo sentido de história: história enquanto se refere à mentalidade histórica de Israel, à sua maneira típica de comportar-se na história. A maior parte dos estudiosos concorda, neste sentido, em caracterizar a autocompreensão de Israel como globalmente histórica, diferente dos Gregos. Estes últimos produziram, de fato, uma historiografia mais claramente organizada em obras literárias e mais deliberadamente crítica diante de suas tradições: procuravam sua identidade – talvez sem nunca encontrá-la verdadeiramente – na esfera política de sua realidade. Nesse permeio os filósofos elaboravam uma filosofia do universo mais cosmológica que histórica. Israel, ao contrário, procedeu à própria autocompreensão sobretudo através das tradições das quais era ao mesmo tempo autor e o beneficiário. Isso, essencialmente, queria sublinhar von Rad com a sua Teologia das tradições históricas de Israel, o primeiro volume da Teologia do Antigo Testamento. Com Israel o ato narrativo teve, desde o início, um valor teológico e esta intenção teológica influenciou a coleta das tradições, que os teólogos, por sua vez, não podiam fazer algo diferente a não seer repetir.

Este segundo nível de pesquisa não deve ser confundido com o primeiro nível: a compreensão “histórica” de um povo não se exprime exclusivamente em literatura, nem principalmente, através dos escritos historiográficos. Pode, ao contrário, exprimir-se através de uma ampla gama de formas narrativas diferentes, ou também através do conjunto de todos os outros gêneros literários, que sofreram um lento processo de historização, ou melhor, de “narrativização”. Esta espécie de expansão da mentalidade histórica, para além da típica forma narrativa da historiografia, encontra a sua expressão na hierarquia interna que caracteriza a literatura de Israel, na qual as unidades narrativas, tipologicamente distintas, resultam subordinadas a conjuntos mais vastos, como acontece, por exemplo, com o famoso documento javista. Esta ampla composição não somente remonta a uma época anterior à monarquia, à colonização e aos patriarcas, até ao momento da criação do mundo; ela, sobretudo, comprende unidades narrativas que representam a inteira gama das formas distinguíveis e, inclusive, amplos textos não propriamente narrativos, como leis, fragmentos sapienciais, elogios(panegíricos), maldições e bênçãos: uma riquíssima variedade de formas literárias e de “instrumentos lingüísticos”. Como já observamos em precedência, para manter esta variedade interna e esta diferença de níveis, é oportuno reservar o termo história às unidades narrativas que apresentam uma real afinidade estrutural e temática com a antiga historiografia grega, definindo as outras narrações “de tipo histórico” segundo o exemplo fornecido por Hans W. Frei em seu The Eclipse of Biblical Narrative (1974).

Somente a nível desta vasta narração de tipo histórico, ou a nível das diversas narrações que se sobrepuseram à grande narração javista, se revela plenamente o projeto teológico da literatura narrativa. Sob este ponto se realizaram importantes progressos desde que Gunkel tentava salvar a historiografia, que ele considerava remontar à idade de Salomão, do desagradável influxo dos profetas. Von Rad reformulou o problema de modo correto, quando viu na grande construção javista a expansão do texto confessional que se lê em Deuteronômio 24,5-9 e em Josué 24, 2-13. Segundo von Rad, este “credo histórico”, com as suas típicas raízes litúrgicas, governou a história da colonização, guiando Israel do Egito à Terra Prometida. A um certo ponto incorporou em si a tradição do Sinai, que em precedência gozava, com os seus mandamentos revelados e a sua teologia da aliança, de uma existência separada como lenda cultural autônoma. Ao redor deste núcleo se aglomerou a história dos patricarcas, que tinha como prefácio a majestosa narração da criação do mundo e da origem da humanidade. O javista teria sido, portanto, o escritor genial capaz, diante do esfacelamento dos mitos de sua matriz originária, de utilizar o motivo teológico próprio da tradição colonial, para dar coerência a este recolhimento de narrações heterogêneas. Com o javista não precisamos mais fazer nada com um canta-histórias, mas com um narrador-teológico que exprime a sua visão das relações entre Deus e o seu povo através de uma narração contínua, na qual a história do povo eleito está ligada à história universal da humanidade e à história do mundo.

Partindo do pólo historiográfico, os sucessores de von Rad se perguntaram como a narração histórica da colonização se liga às narrações da sucessão e da subida ao trono de Davi. Quais mudanças assinalaram a passagem da visão sagrada e política da soberanidade de Deus sobre a história à idéia de um guia divino operante durante a migração e a colonização? A primeira visão serviu, talvez, como modelo estrutural para a segunda e a segunda como modelo teológico para a primeira? Neste sentido adquire grande importância uma sugestão de Robert Alter: ele se pergunta se o paradoxo que aborde a inevitabilidade do plano divino e a relutância dos homens não resulte expresso também nas mais pequenas unidades narrativas, quando estas são examinadas à luz da técnica narrativa. As narrações mais significativas seriam, então, aquelas nas quais se realiza a intenção divina, não através de uma intervenção divina, mas através do jogo mesmo das paixões humanas, segundo os critérios de uma nemesis ligada à conduta humana.

Indagando sobre teologia da história que emerge das diversas unidades narrativas, as mais amplas e também as menores, retornamos assim do pólo historiográfico ao mítico. Na verdade, seria necessário falar de teologias da história, no momento em que não é certo que aquela que foi chamada história da salvação (Heilsgeschichte) exaura todo o emaranhado das intenções dos autores bíblicos. É necessário evitar de projetar sobre os textos antigos a teologia bíblica de hoje, respeitando, isso sim, o enredo dos temas teológicos diferentes: a aliança, a promessa e o seu cumprimento, o ensinamento moral que percorre a narração e assim por diante. Mas também, excetuando desta multiplicidade de teologias da história, permanece a questão da função global do plano teológico. Também este, talvez, quase a contrabalançar a historização dos mitos de origem, faz de alguma forma de mito, no sentido que funda de forma transcendente a história presente sobre uma história mais fundamental. Parece, na verdade, que a teologia tradicional tenha sido assimilada no mito etiológico da colonização de uma terra estrangeira, do dom de um país. Depois da catástrofe do exílio, este mesmo mito foi capaz de transformar-se em um mito etiológico da perda da terra. E esta segunda utilização etiológica do mito se resolve em uma nova teologia da história, centrada no tema da recompensa: trata-se, em síntese, de uma teodicéia. Na narração deuteronômica esta nova teodicéia se exprime em um modo que historiograficamente pode parecer fraca, mas que se revela muito forte por suas implicações éticas. Devemos admitir, contudo, que quando chamamos mito a história da salvação estendemos a noção de mito, bem além de seu significado de história das origens colocadas in illo tempore. A história da salvação, de fato, se revela inteiramente no tempo dos homens, e não no tempo dos deuses. Esta diferença fundamental deve-nos, portanto, sugerir cautela em utilizar o termo mito para indicar interpretações teológicas como as da história da salvação.

Num terceiro nível de análise devemos reservar a questão controvertida se a concepção do tempo no antigo Israel fosse explícita ou somente implícita. James Barr, in Biblical Words for Time, nos previne contra a tentação de procurar informações sobre a concepção hebraica do tempo na linguagem, no vocabulário, na semântica ou na etimologia de palavras específicas. O significado das palavras, observa Barr, nasce de seu uso em contextos determinados. Em nossa tentativa de descobrir a concepção hebraica do tempo, portanto, nos encontramos na realidade remetidos aos contextos fornecidos pelas formas narrativas e à mentalidade histórica, elementos que já consideramos anteriormente.

Surge logo a primeira pergunta: nas formas narrativas utilizadas pela Bíblia está implícita alguma concepção do tempo? A primeira vista a resposta pareceria negativa. Os diversos gêneros de narração, considerados separadamente, contêm implicações temporais bem diferentes. Das histórias de Samuel ou dos Reis, por exemplo, não se pode tirar alguma visão geral do tempo: referem-se a um segmento de tempo bem determinado que não permite extrapolações. Certamente podemos admitir que a historiografia da Bíblia, como aquela dos Gregos, possui uma certa familiaridade com a sucessão temporal e a cronologia. Mas esta relação com o tempo é somente de tipo pragmático. Além disso, e isto é o ponto mais importante, outras formas narrativas (como a saga e a lenda, de um lado, e o mito de origem, do outro) se colocam em tempos qualitativamente diferentes, que podem oportunamente ser definidos, de tempos em tempos, “recentes”, “distantes” ou mesmo “primordiais”. Por isso, os “dias” da criação são incomensuráveis em relação aos anos nos quais reinam os soberanos; e o mesmo pode-se dizer para os patriarcas, que se situam, por assim dizer, “a meio caminho” entre os tempos primordiais e o tempo histórico. Revela-se, portanto, indispensável respeitar as diferentes características temporais que são próprias de cada categoria narrativa.

Se tomarmos agora em consideração as grandes composições narrativas, como a do javista, no qual se exprime a mentalidade histórica do antigo Israel, não podemos negar que as várias tradições, com suas diferentes extensões, são todas submetidas a uma ordem temporal unitária. Trata-se provavelmente, de um tempo retilíneo e irreversível, que serve de fundo à história universal, da criação até o fim da monarquia e ao retorno da escravidão babilônica. Contudo, à parte o fato que uma semelhante representação do tempo não nunca abertamente explicitada do brilhante autor do documento javista, essa resultaria em todo caso (mesmo que fosse tornada explícita) totalmente inadequada ao estilo narrativo desta narração. E isso por uma série de razões.

Em primeiro lugar, o tempo que se manifesta neste amplo bloco narrativo permanece uma criação da própria arte narrativa. O tempo interno à representação narrativa, na verdade, não cancela de forma alguma as diferenças entre os diversos intervalos de tempo que abarca. Não podemos dizer, portanto, que a escolha de Abraão acontece depois dos sete dias da criação. A sucessão narrativa não nos autoriza por si só projetar sobre uma escala temporal unitária o tempo das origens, aquele dos patriarcas, aquele da permanência em Canaã e aquele do período monárquico. A idéia de uma única escala narrativa, comum a todos os períodos temporais, é somente uma idéia moderna, estranha ao modo de pensar do antigo Israel e também ao da antiga Grécia.

Em segundo lugar, à sucessão temporal pela qual um evento segue ao outro se acrescenta uma complexa série de correspondências e de analogias, como acontece, por exemplo, entre as várias alianças, as várias leis e as várias teofanias. Neste sentido se poderia falar de acumulação do tempo, em vez de simplesmente de sucessão.

Finalmente (mas de grande importância): a relação entre a fidelidade de Deus e a relutância do homem, representada de infinitos modos na Bíblia da específica arte narrativa de contar de história, narradores e históricos, não pode ser interpretadas segundo as categorias que herdamos do Platonismo e do Neoplatonismo. Segundo tais categorias, a imutabilidade divina aparece diametralmente oposta à mutabilidade das coisas humanas; a fidelidade de Deus na Bíblia, que assinala a história do homem, sugere a idéia de uma onitemporalidade mais do que uma sobretemporalidade. Tal onitemporalidade, além disso, se encontra em perfeito acordo com o tipo de história cumulativa da qual apenas fizemos menção. Para poder licitamente falar de um tempo bíblico, devemos examinar todos os gêneros literários, e não somente o narrativo. Há um tempo imemorável das leis, um tempo prolético da profecia, um tempo quotidiano da sabedoria, um “agora” do lamento e do louvor. O tempo bíblico – se esta expressão tem algum significado – é constituído pelo cruzamento de todos os valores temporais conservados pelas diferentes formas narrativas. A imagem de um tempo linear e irreversível resulta, portanto, totalmente inadequada a este coro de vozes soltas.

Podemos agora, realmente falar de um retorno do tempo mítico através de narrações de tipo histórico, no coração das teologias que presidem a própria composição narrativa, na concepção da história como história da salvação? Somente se atribuirmos ao termo mito o sentido extremamente genérico de narração fundante correlata à existência quotidiana. De fato, a historização do mito é tão importante quanto a mitologização da história. As características do mito de origem em Gênesis 1-11 demonstram, por exemplo, uma clara subordinação do mito à história. E o mito antiqüíssimo, quando é reproposto no espaço gravitacional da historiografia do período monárquico e da narração da conquista e da colonização, se revela na realidade somente um mito diluído.

Exatamente nisso reside, talvez, a afinidade escondida entre o pensamento grego e o hebraico. Ambos, cada qual a seu modo, rompem com o mito, ambos reiventam o mito: um como narração filosófica (como em Platão), o outro como mito diluído e historicizado, como na narração javista da criação.


Paul Ricoeur
Tradução: Ir. Paulo Dullius

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